Marlene Marques Ávila
Esses dias o mundo tomou conhecimento que um homem havia se tornado o primeiro trilionário da História. Fico pensando o que vem à cabeça das pessoas ao tomar conhecimento de tal fato. Eu, fiquei tentando entender, mas confesso, foge do meu alcance, primeiro porque não faço a menor ideia do tanto que alguém possui para ser assim nomeado; segundo porque penso que por mais que alguém trabalhe toda uma vida e consiga as mais lucrativas recompensas por esse trabalho, isso não seria o suficiente para torná-lo um trilionário.
Assim, a reflexão seguinte, é sobre quantos alguéns, essa pessoa precisou para acumular tal riqueza, ou seja, quantos trabalharam durante quanto tempo para UM tornar-se trilionário. É então que Marx e suas ideias sobre a produção, apropriação e controle da riqueza entram na história. Um trilionário representa o ápice da concentração do capital e da apropriação do trabalho social, e do acúmulo de poder. O fato de, nesse momento da história, alguém se tornar o primeiro trilionário é revelador do grau de privatização da riqueza coletiva da humanidade (1).
Então comecei a divagar, quantas pessoas poderiam ser ajudadas com apenas uma parcela insignificante dessa riqueza, dada a sua grandeza. Bem ao lado do país onde vive o trilionário, há uma ilha com cerca de 10 milhões de pessoas, que há anos vive sob o bloqueio econômico promovido pelo vizinho onipotente.
Ilhada, Cuba enfrenta desde os anos 1960 o bloqueio comercial promovido pelos Estados Unidos. Apesar disso, se destacou como modelo de saúde pública ao optar pela medicina preventiva e alcançar invejáveis indicadores de saúde. Contudo, com a ofensiva realizada pelo atual governo estadunidense, o sistema de saúde cubano enfrenta grandes desafios com as perdas financeiras que afetam diretamente a quantidade e a qualidade do serviço prestado.
No ápice da crise atual, o governo cubano dolarizou a economia buscando divisas, em consequência, se deteriorou a qualidade de vida da maioria das famílias que recebem o salário em peso cubano. Em Cuba faltam energia e transporte público por causa da escassez de combustível, dá para sobreviver? Sim, dá para sobreviver sem esses itens. Mas também falta água e alimentos. Como sobreviver?
Voltando ao trilionário, procurei dados para fazer uma comparação grosseira, eu sei, é apenas tentativa de dar ideia do tamanho da desigualdade possibilitada pela estrutura econômica e financeira que produz um absurdo como esse. O PIB de Cuba, um país, é cerca de US$ 201,9 bilhões, enquanto a fortuna do trilionário, um indivíduo, corresponde a cerca de mil bilhões de dólares.
Em um curso que fiz recentemente sobre a sociedade, a política e a história do Brasil, cursei um módulo de Economia com o professor Ladislau Dowbor, do qual, ouvi repetidas vezes, que é missão da Economia assegurar que o dinheiro gerado pela sociedade sirva para promover boas condições de vida a todos, e que a desigualdade é fruto de um sistema institucionalizado cuja dinâmica estrutural precisa ser revertida. A pobreza em Cuba e em tantos outros países e a riqueza fabulosa de um punhado de pessoas no mundo, são as duas faces desse sistema para o qual ética humana e justiça social são conceitos desconhecidos.
1. Teles, Gabriel. O trilionário e a falência da escala humana. Disponível em: https://diplomatique.org.br/o-trilionario-e-a-falencia-da-escala-humana/
E-mail: marquesavilamarlene@gmail.com
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