Marlene Marques Ávila
Li esses dias um texto de Marilena Chauí, onde ela afirma o seguinte: “eleições não significam mera alternância de poder, mas assinalam que o poder está sempre vazio, que seu detentor é a sociedade e que o governante apenas o ocupa por haver recebido um mandato temporário para isto.” Fiquei pensando que esse é um ideal, do qual os políticos querem distância e os eleitores não fazem ideia. Poucos compreendem que presidentes, governadores, prefeitos, qualquer cargo eletivo enfim, só o são, porque o povo os escolheu, isto é, concedeu o direito de, temporariamente, lhe representar no poder de governar o país, o estado, o município.
Na Roma antiga a palavra eleger tinha o sentido de exercer o poder de dar algo que se tinha, uma vez que não se pode dar o que não se possui, ou seja, ao eleger um governante, o votante se afirma com o poder para escolher quem ele deseja que governe por um determinado tempo.
Contudo, no Brasil, nem os votantes compreendem a grandeza de seu poder, nem os votados aceitam que seu mandato é temporário. Em consequência, o que se vê em pleno século XXI, é como uma continuidade das capitanias hereditárias no que diz respeito ao poder político. Os cargos eletivos em todos os níveis de poder, passam de pais para filhos, o que ocorre em todas as regiões do Brasil.
No Nordeste, entre outras, podemos citar como famílias ou oligarquias nas quais o exercício dos mandatos eletivos passam de pais para filhos, os Sarney, Calheiros, Magalhães, Cunha Lima; no Norte a família Barbalha; No Sul os Bolsonaro; No Sudeste as famílias Neves, Covas e Maia; no Centro- Oeste os Roriz e Correa da Costa.
Lógico que essas famílias, além do poder político, detêm riquezas e privilégios e governam para os seus, enquanto a maioria dos votantes compõe a população socialmente excluída. Tal situação é determinante para a manutenção da desigualdade social no Brasil, uma vez que o Congresso Nacional não se renova. Salvas raras exceções, os parlamentares estão lá para manter a continuidade de seus privilégios e o conservadorismo que impede as mudanças necessárias à reversão da ordem vigente, contando para isso, é fundamental ressaltar, com o apoio da classe média.
E por que o Congresso não se renova? Além dos fatores relacionados ao poder econômico dos que já o ocupam, e todo o poder político que têm em mãos e que usam para fazer as regras que os favorecem, inclusive para bancar os custos exorbitantes das campanhas, colabora para isso, o tipo de relação que o político estabelece com seu eleitorado - clientelismo, favor, tutela - o qual, como iniciei declarando, não sabe o poder que tem nas mãos, ou melhor, no voto.
E-mail: marquesavilamarlene@gmail.com
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