Tempos líquidos


Marlene Marques Ávila


Se procurarmos as características da geração baby boomer, veremos que valores tradicionais como laços familiares estáveis e afetivos, amizades duradouras, respeito, honra, busca de carreiras profissionais sólidas, são marcas dessa geração. O que não significa que as pessoas dessa geração não lutaram por mudanças necessárias, a exemplo da luta por direitos civis e o feminismo.
Pertenço a essa geração, a qual foi desafiada a partir dos últimos anos do século XX a se incluir na era digital. Lidamos bem com o desafio, porém, não nos deixamos dominar pela tecnologia, pelo menos é o que acho.
Essa opinião é devida a compreender que a maioria de nós não se encaixa na “sociedade líquida” designada pelo sociólogo Zygmunt Bauman como a sociedade do imediatismo, onde impera o individualismo, em que as mudanças acontecem com rapidez, as regras são as do mercado. É a sociedade que alimenta as redes sociais com uma diversidade de laços frágeis e fugazes que se desconectam rapidamente.
É um tempo de compromissos temporais, que duram enquanto dura o prazer, a satisfação passageira. Essa transitoriedade implica em aprender e esquecer rapidamente, dada a velocidade em que são transmitidos (e substituídos) os dados nas redes.
Essa transformação se relaciona com a atual crise na educação, porque conforme Bauman, a avaliação do conhecimento se dava na medida em que era capaz de representar o mundo de forma fidedigna, mas como fazer isso em um mundo que muda constantemente, desafiando o saber existente? O mundo além da escola, a desafia, porque cresce de uma forma diferente daquela para a qual ela está apta a educar.
Assistimos diariamente a notícias que nos chocam profundamente, envolvendo crianças e adolescentes envolvidos em assassinatos, roubos, estupros, maltrato de animais, bem como à sua vulnerabilidade aos crimes sexuais. São crianças das chamadas gerações digitais, filhas da modernidade líquida, que conforme Bauman é “uma sociedade em que as condições sob as quais agem seus membros mudam num tempo mais curto do que aquele necessário para a consolidação, em hábitos e rotinas, das formas de agir”. É uma sociedade onde valores como respeito, honra, honestidade foram ultrapassados. Foi a isso que me referi anteriormente ao dizer que nós da geração baby boomer não nos deixamos dominar pela tecnologia digital.
Para terminar de forma otimista, vejo com grande esperança algumas mudanças que apontam para um maior controle dos pais sobre o acesso das crianças às redes sociais e a proibição de celulares nas escolas. Pode ser um Re-começo.

Bibliografia
Zygmunt Bauman. Modernidade líquida, Rio de janeiro: Jorge Zahar, 2001.

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Marlene Marques Ávila

E-mail: marquesavilamarlene@gmail.com

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