A Andarilha*


Marlene Marques Ávila

Na Europa, pelo menos oito caminhos levam a Santiago de Compostela. O mais conhecido é o mais longo deles, o Caminho Francês, o qual, percorri com meu companheiro e um grupo de amigos, em 2017. Em abril de 2022 o chamado foi irresistível e voltamos ao Caminho. Desta vez fizemos o Caminho Central Português que inicia na cidade do Porto, mas nós começamos a caminhar a partir de Barcelos, percorrendo uma distância de cerca de duzentos quilômetros. Nesta rota passamos por lugares muito bonitos, pequenas cidades e vilas, rios e montanhas, sendo a mais alta a serra da Labruja, maior desafio para quem escolhe fazer este percurso.
Mais ou menos na metade da distância de vinte e um quilômetros entre Barcelos e Vitorino de Peães, onde faríamos nossa primeira parada, encontramos uma peregrina que fazia sozinha o Caminho. Acho essa coragem admirável, é preciso muita garra. Sempre que encontrávamos essas peregrinas solitárias, o que não é raro, eu gostava de conversar, de acompanhá-las pelo tempo possível. Começamos a conversar e ela juntou-se ao nosso grupo, naquele dia terminou o trecho conosco.
Chamava-se Erika, uma alemã de mais ou menos cinquenta anos, misturava inglês e espanhol para conseguir comunicar-se e supria a falta das palavras desconhecidas com gestos. Na verdade, não era uma peregrina, saíra de sua terra, Ulm, em 2020 e até então já percorrera parte da França, Espanha e agora Portugal, seu destino não era Santiago de Compostela.
Antes de pegar a estrada trabalhava como enfermeira. A mãe era toda a família que conhecia. Moravam em uma pequena casa à beira do Blau, um rio de águas transparentes, um lugar bonito e agradável para se viver. Levava sua vida em seu pequeno e previsível mundo, mas que preenchia suas aspirações. Relatava essas coisas de forma serena, era seu passado, o que tinha de ser vivido, pelo menos essa era a sensação que eu tinha ao ouvi-la.
Em março de 2020, a Covid-19 chegou em seu estado, Baden-Württemberg, um dos mais afetados pela pandemia na Alemanha, e logo atingiu Ulm. Sua mãe estava então sob cuidados médicos devido a uma pneumonia, nada grave, quase sempre nos meses mais frios isso ocorria com ela, estava em tratamento desde fevereiro e já praticamente curada. Mas, contra o prognóstico positivo, a tosse voltou e passou a ter dificuldade para respirar. Foram ao consultório do médico, onde tiveram a notícia que ele estava hospitalizado em estado crítico. O doutor Meyer fora uma das tantas pessoas que se contagiaram durante uma festa de carnaval em Heinsberg, veio a saber depois no hospital.
Entre o agravamento da doença e a perda de sua mãe foram apenas nove dias. Uma semana após o sepultamento, Erika fechou a porta de sua casa pela última vez. O que avaliou ser mais necessário para sua sobrevivência estava em um mochilão, aquele mesmo que quando a vimos comentamos não saber como ela conseguia carregar. Saiu da cidade um dia antes de ser decretado o isolamento social.
Desde então já foram muitos os caminhos percorridos, muita coisa vista, paisagens e edificações que nunca imaginara ver e que na verdade, em sua vida anterior não lhe causavam nenhuma curiosidade. No primeiro ano, suas economias permitiram dormir em albergues modestos. Agora pedia abrigo em igrejas ou outras instituições filantrópicas, para passar a noite, e se possível, algo para comer. O sol saindo, se punha a caminho. Às vezes, como naquele dia, encontrava viajantes que lhe pagavam uma refeição e lhe davam algum dinheiro. Recebia constrangida, não era mendiga, lhe doía que alguém assim pensasse.
Em Vitorino de Peães dormiríamos em uma pousada rural, de preço muito acessível, lá chegando, Erika despediu-se, iria procurar abrigo na igreja. Em um ímpeto falei:
- Te gustaria quedarte aqui hoy?
- No lo sé, y tus amigos agree?
- Por favor, me gustaría hablar más contigo, saber más sobre tu viaje.
- Estas seguro this? Los others... no les importará?
- Hablé con todos, no te preocupes.
Então nos acomodamos, depois de um banho e um bom jantar, conversamos até o cansaço da caminhada dar sinal que o corpo precisava repousar, era hora de dormir.
- Buenas noches Erika, nos vemos em el desayuno.
- Buenas noche, thank you, it was agradable hablar contigo. Buen Camino!
No dia seguinte, cumpri o ritual do peregrino: sair da cama mal o sol aparece, fazer a higiene pessoal, arrumar a mochila, tomar o desjejum e retomar o Caminho. Na copa aguardei um pouco para tomar o café com Érika, como estava demorando, comecei a comer, terminei e ela não apareceu. Eu queria me despedir, mas estava ficando tarde, meu grupo de peregrinos me aguardava. Suzana, a dona da pousada, percebeu minha ansiedade:
- Se está esperando pela alemã, ela já foi. Partiu há uma hora.
Fiquei triste, gostaria mesmo de despedir-me. Que siga em paz, seja lá para onde vá!
Nunca a esqueci. No Caminho encontramos peregrinos de todas as partes do mundo, muitos deles sozinhos, mas têm um destino certo. Alguns, depois de cumprir a peregrinação, visitam outras cidades, outros países, mas ao final têm uma casa para onde voltar. Este não era o caso de Erika, ela não queria voltar, queria seguir, caminhar sempre, seu futuro era aquele, aonde o caminho a levaria não era importante.
Havia me dito que seu próximo destino seria a Itália, mas não faria diferença chegar em qualquer outro país, lhe importava fazer o caminho só de ida, cada dia um local diferente, sem compromisso com nada, pessoas ou lugares. O lugar que a atraía estava nela própria, refleti, mas não conseguia deslumbrá-lo no emaranhado de caminhos e rumos em que se perdera.

* Essa crônica originalmente integra a coletânea As vidas que ninguém vê, publicada pela Editora Metamorfose no ano de 2024.

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Marlene Marques Ávila

E-mail: marquesavilamarlene@gmail.com

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