Viver


Marlene Marques Ávila

Parecia tão frágil, pequena e franzina entrando sozinha na igreja ao som da marcha nupcial de Mendelssohn, nas mãos um ramalhete de rosas chá. Enquanto caminhava cadenciadamente ao som da música, dezenas de olhos a olhavam, uns com admiração, outros com inveja e alguns com vergonha ou desdém. Mas a pequena mulher caminhou altiva, olhando fixamente para o noivo, um homem vinte e cinco anos mais jovem, que inquieto, a esperava frente ao altar.
Não consegui conter a emoção, silenciosas, lágrimas escorreram em meu rosto enquanto eu sorria, e pedia com todo coração que ela fosse feliz. A conhecia há tanto tempo, a aparência frágil escondia uma mulher determinada, a vida a ensinara a ser forte; sua história era muito igual a de tantas outras mulheres de sua geração. Casavam cedo, ela com quinze anos; tinham uma família numerosa, teve onze filhos e filhas; cuidavam da casa, da família, do marido e de quebra arranjavam algum trabalho para ajudar na renda familiar.
Se havia prazer na vida conjugal, não se sabia. Momentos de lazer eram raros. Tinha sonhos? Sonhava pelos outros. Os seus próprios, guardara há tanto tempo que parecia ter esquecido. Alegrias? As dos filhos e filhas, para quem vivia, cujas realizações, nela reverberavam.
Por tanto tempo vivera em função da família, a qual comandava com firmeza, o que, entretanto, não impedira de uns e outras desviar do caminho que ela havia pensado ser o melhor. Fazer o que? Conformar-se, a roda da vida continuava a girar e não podia perder o rumo, mesmo que o seu não tivesse sido ela a traçar.
Não foi sua escolha casar aos quinze anos com um homem mais velho, que já tinha filhos da idade dela. Mas, tão menina, nem pensou em se rebelar contra a decisão da família, isso jamais passaria pela cabeça dela. Se havia uma lição aprendida cedo, era que o pai estava sempre certo e nunca devia ser contrariado.
Dada a lógica linear do tempo (deixando de lado a complexidade dessa afirmação), o tempo do marido acabou quando ela era cinquentona. Sofreu com a perda, mas acostumada aos reveses, seguiu em frente. Àquela altura, filhos e filhas já tinham tomado seus próprios rumos, se viu, pela primeira vez em tantos anos, tendo que cuidar dela mesma. Abriu então o baú onde guardara os sonhos.
Alguns não dava mais pra realizar, eram incompatíveis com sua fase de vida atual, mas para outros, quem sabe, poderia tentar, afinal, precisava fazer algo com essa liberdade que nunca desfrutara antes.
Começou a se cuidar mais, queria ficar bonita para ela mesma, se olhar no espelho e gostar da sua imagem, uma mulher madura que voltara a sonhar, e pela primeira vez na vida se sentia livre. Podia fazer o que quisesse sem dar satisfação a ninguém, ir e vir sem hora marcada. Gostava muito de praia, agora poderia ir e ficar os dias que quisesse.
Poderia até ir ao cinema sozinha, ao teatro! Gostava de filmes, mas nem lembrava da última vez que entrara em um cinema. Uma peça então, só sabia como era um teatro por ter visto algumas vezes na televisão. Aos poucos foi descobrindo o prazer da liberdade, mas ela gostava de companhia e não tinha amigas com quem fazer tudo o que queria, e sozinha, não achava muita graça. Com as filhas, nem pensar, se elas soubessem o que se passava em sua cabeça, achariam que estava louca, a internariam.
Foi então que o conheceu, trabalhava no supermercado em frente à sua casa, onde ia sempre. A primeira vez que o flagrou olhando para ela, mudou rapidamente o olhar, ficou envergonhada, depois pensou que era tolice sua, ele devia estar pensando sobre alguma coisa e distraidamente seu olhar caíra sobre ela.
Na próxima vez que foi ao supermercado, logo que entrou o viu, ele a cumprimentou, parecia estar à sua espera. Estou fantasiando, ela pensou, mas ao passar as mercadorias no caixa, ele se aproximou e se ofereceu para ajudar com a sacola, ela agradeceu e foi embora rápido. Mas tinha certeza que enrubescera, censurou a si própria por isso, reflexo de anos e anos em que tantas vezes escondera suas emoções. Pouco tempo depois que chegou em casa, a campainha tocou, abriu a porta e lá estava ele, ficou espantada e também receosa, afinal o que ele queria com ela?
– Olá, vim deixar seu cartão, você deixou na maquineta.
Novamente se censurou – Que tonta, ficara tão embaraçada quando ele se aproximou dela no caixa que esquecera o cartão.
– Obrigada...como sabia que moro aqui?
– Eu também moro aqui, nesse bloco ali atrás. O porteiro me disse qual era o seu apartamento.
– Ah, muito obrigada mesmo. Até logo.
Depois desse dia, sempre que ia ao supermercado conversavam um pouco. Um dia a convidou para jantar na casa dele, disse que morava com uma irmã. Esse foi o primeiro de muitos jantares, na casa dele e na dela, mas sempre acompanhados da irmã. Primeiro foi uma amizade que aos poucos se transformou em algo que ela não chamava amor, era mais uma satisfação em compartilhar as coisas do dia a dia, um bem-estar na presença dele. Se viam todas as noites, assistiam filmes, conversavam, jogavam cartas, mas não havia maior intimidade entre os dois.
Às vezes, antes de ir para o trabalho, ele ia até o apartamento dela, tomavam café juntos, ele perguntava se ela precisava de alguma coisa, ele poderia vir deixar. Foi em uma dessas ocasiões que sem aviso prévio, ele perguntou se ela queria casar, e inacreditavelmente, sem racionalizar a resposta, ela respondeu que sim.
Depois que ele se foi, ela sentiu como se estivesse saindo de um sonho do qual tentava se lembrar, mas alguns detalhes eram fugidios. Tudo que lembrava era que ele a pediu em casamento, assim na bucha, e ela também sem pensar um segundo disse que casava. E agora, como ia ser? Como diria isso à família, com certeza achariam que ela tinha realmente perdido o juízo.
Talvez enquanto caminhava até ao altar, olhando para ele, estivesse lembrando de todos os argumentos contrários ao casamento que a família tinha levantado, mas ela não precisava da autorização deles, era livre, tinha autonomia sobre a sua própria vida. Caminhou decidida sem olhar para os lados, mas adivinhava os olhares de desdém de muitos daqueles que ali estavam, pouco lhe importava.
Durante quase quinze anos foram felizes, ele era o melhor companheiro que ela poderia ter, fizeram muitas viagens, se divertiram, realizou antigos sonhos, viveu tudo o que tinha para viver.
E quando o seu tempo, em sua hipotética linearidade, chegou ao fim, ele estava lá, a segurou pela mão enquanto ela fazia a passagem para essa outra dimensão misteriosa da vida.

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Marlene Marques Ávila

E-mail: marquesavilamarlene@gmail.com

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