Marlene Marques Ávila
Nos anos 1960 as crianças tinham uma infância muito diferente de hoje, quem é avó, avô, sabe bem disso. Ainda não havia o atual conjunto de leis de proteção à criança, mas a vida era boa, as crianças brincavam na rua que não oferecia perigo algum, a não ser as quedas, arranhões e às vezes algum bofete quando se engalfinhavam por qualquer razão que justificasse a briga, pelo menos no julgamento delas.
Era nesse momento, que geralmente as mães se metiam para separar os briguentos, as vezes eram castigados pra não brigar mais na rua, contudo, na próxima ocasião que surgisse o motivo brigavam de novo; nem as brigas, nem os castigos deixavam traumas que mais tarde precisassem ser tratados. Faziam parte daquela infância, e hoje são lembranças boas que as gerações baby boomers e X trazem consigo.
A rua era um amplo parque de diversões, onde não se pagava nada e se escolhia do que brincar – jogar futebol, brincar de pega-pega, de esconde-esconde, de bola de gude, de soltar o pião, de triângulo, pegar a bandeira, de roda, pular corda, amarelinha, soltar pipa – não essas compradas prontas, mas feitas pelas crianças, o que em si já era um brinquedo.
E quem não quisesse brincar, simplesmente sentava nas calçadas e apreciava as brincadeiras, dando pitacos nem sempre bem-vindos. Ah, havia ainda os banhos de rio, o que era muito temido pelas mães, muitas proibiam, em vão, era comum aos que burlavam a proibição voltar do rio sob o puxão de orelhas ou de chineladas, para o delírio da molecada, o que doía mais era isso.
Mas a vida não era só brincadeira, as crianças tinham obrigações além da escola. Na rotina da casa, cabiam tarefas domésticas a cada uma, o que também não requereu uma psicoterapia na vida adulta, ao contrário, formou pessoas mais responsáveis e autônomas.
Uma dessas obrigações das crianças personagens desse relato, era levar o almoço para os pais no local de trabalho. De segunda a sexta-feira, Afonso e Zeca percorriam uma distância de mais ou menos três quilômetros para levar a refeição dos pais.
Certo dia observaram que sempre num determinado ponto do caminho, ainda bem próximo de casa, ouviam o ronco alto do motor de um caminhão, que parecia repetir buckbuckbuck e logo passava por eles.
Na quarta vez que isso aconteceu, quando ouviram o barulho, aguardaram para pedir carona, o motorista os mandou subir na carroceria, sua rota era a mesma das crianças. Ao chegar onde saltariam, ele apenas reduziu a marcha e os mandou pular, foi uma aventura.
Daí em diante, era batata, esperavam o buckbuck e já ficavam se preparando para o salto. A comida na marmita se misturava toda, mas os pais nunca vieram a saber o porquê, achavam que era mesmo do sacolejar no caminho. Sequer sonhassem o que acontecia, além das chineladas, nunca mais buckbuck e eles não queriam perder aquela aventura no fenemê.
Os anos passaram, as crianças cresceram, seguiram seus caminhos, mas esse acontecimento em suas vidas, certamente censurável pelos padrões atuais, faz parte de suas lembranças de uma infância feliz. Do ponto de vista material, não era uma vida farta, abundante, como a que seus netos têm hoje, mas era certamente mais divertida e mais saudável. Dela, lembram com carinho e risos quando se encontram.
E-mail: marquesavilamarlene@gmail.com
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