Inexplicável


Marlene Marques Ávila

José nos encontrou rindo como loucas, simplesmente não conseguíamos parar, foi uma catarse. O cansaço, os pés machucados, a visão do horizonte e saber que nossa jornada nos levaria além, e a incompreensão sobre porque as pessoas fazem tantas vezes o Caminho.
O riso foi disparado ao nos depararmos com uma lápide à beira da estrada, quase coberta pela vegetação. Na cruz que a encimava, estava escrito o nome da peregrina que terminou ali sua jornada, o tempo em que esteve no planeta Terra e a inscrição: “Em su segundo Camino”.
Ao ler tal epígrafe, no auge do cansaço, Soraya não se conteve e exclamou: “Criatura, por que viestes fazer de novo, não bastava uma vez?” E então desatamos a rir.
– Com isso não se brinca. Falou José muito sério.
Ele tinha sido o principal responsável pelas pesquisas que antecederam a viagem - as rotas, albergues, hotéis, curiosidades do Caminho, cidades a serem mais exploradas. Pesquisara sobre quase tudo, mas nunca nos falou das pessoas que morreram fazendo o Caminho, e esse, não é um acontecimento incomum. Depois daquela, vimos várias outras demarcações de locais onde alguém faleceu.
Explicou que não nos falou porque nas várias fontes consultadas não lera nada a respeito, mas desconfio que não o fez por medo de alguém desistir da viagem, para nós, a realização de um antigo sonho.
Na primeira noite, no albergue em Roncesvalles, nos Pirineus, encontramos um grupo de brasileiros, os quais estavam refazendo a caminhada estafante pela quinta vez, refazer não é a palavra mais apropriada, pois cada vez a experiência é diferente, nos disseram, e vim a compreender isso melhor tempos depois.
Contudo, naquele momento aquilo me soou como uma loucura total. Afinal, tínhamos saído de Orisson, antes mesmo do nascer do sol, subido os Pirineus, atingindo uma altitude de mil quatrocentos e trinta metros, antes de iniciar a descida para Roncesvalles, onde cheguei estropiada e com os pés cheios de bolhas, e era apenas o primeiro dia dos vinte planejados, então só podia ser brincadeira alguém dizer que fazia aquilo pela quinta vez.
Quando nos deparamos com aquela primeira lápide, e tivemos a crise de riso, estávamos no sexto dia de nossa caminhada e coincidentemente eu havia comentado, lembrando do grupo de brasileiros, que não compreendia porque algumas pessoas faziam tantas vezes essa peregrinação, pois no que me dizia respeito, aquela seria a primeira e a última vez. Não tinha a menor intenção de repetir a façanha.
No entanto, a repeti quatro anos depois, é a magia do Caminho.

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Marlene Marques Ávila

E-mail: marquesavilamarlene@gmail.com

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