Acordos vazios


Marlene Marques Ávila

No dia sete de outubro de 2025 a guerra entre Israel e Gaza completou dois anos. No dia seguinte, Israel e o Hamas assinaram um acordo de cessar fogo, cujo principal protagonista foi Donald Trump. Uma semana depois, à treze de outubro em Sharm el-Sheykh, uma cidade egípcia, foi assinada a declaração de paz mediada pelos Estados Unidos, Egito, Catar e Turquia.
A iniciativa do acordo partiu do presidente dos Estados Unidos, fato amplificado pela mídia global, o que não é dito é que sem o apoio estadunidense, Israel não conseguiria ter cometido todas as atrocidades que o mundo assistiu ao vivo diariamente na Faixa de Gaza, onde no decorrer de dois anos foram mortos mais de cinquenta mil pessoas, incluindo milhares de crianças e deixando órfãs outro tanto.
Ao evento no Egito, compareceram diversos líderes internacionais, mas estranhamente, os conflitantes lá não estavam, o que, vamos convir, não é um bom augúrio; essa ausência, a história assim o demonstra, é uma constante nos acordos internacionais que envolvem aquela região, a cujo povo é negado o direito de ser sujeito da própria história, o qual, desde a criação do Estado de Israel, vê continuadamente negada a sua soberania, sob o aval das grandes potências ocidentais, cujos interesses no Oriente Médio passam longe da preocupação em fazer justiça e promover a autonomia do povo palestino.
É mais uma vez um acordo imposto, do qual consta a reconstrução de Gaza sob a tutela internacional. A proposta é que seja criado um comitê palestino apolítico, entenderam bem? Apolítico. Ademais, para reconstruir Gaza, o povo palestino precisa de uma supervisão externa, e essa, será exercida por um “comitê tecnocrático” sob a supervisão de um conselho de paz, cujo líder máximo só poderia ser Donald Trump, o mediador da paz, tão injustiçado pelo Comitê Norueguês do Nobel, como pode? Logo ele, tão pacífico e justo!
O que o acordo não diz exatamente é de onde virá a ajuda econômica para essa reconstrução, e o que, concretamente será feito, para a criação do Estado palestino. Também não diz como serão reconfiguradas as fronteiras, nunca dantes respeitadas por Israel.
Transcorridos três dias da cerimônia em Sharm el-Sheykh, o acordo já revela toda a fragilidade das bases da negociação. Uma das exigências, muito justa de Israel, é a devolução de todos os reféns ainda em poder do Hamas, os vivos e os mortos. Contudo, segundo as fontes de inteligência, a priori, Israel sabia que o Hamas desconhece a localização dos corpos de alguns dos reféns.
Decorrente desse impasse, o mundo continua assistindo em tempo real, os palestinos retornando para o que restou de Gaza, sem nenhuma garantia se ficam, nem por quanto tempo, e sob quais condições de sobrevivência. Enquanto isso, na fronteira de Rafah, os veículos com alimentação e medicamentos estão impedidos de entrar.

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Marlene Marques Ávila

E-mail: marquesavilamarlene@gmail.com

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