A menina e o mar


Marlene Marques Ávila

Ela ia e vinha num movimento contrário ao das ondas, uma avançava, a outra recuava, não com o mesmo ímpeto, mas com cuidado e com o olhar atento ao avanço da nova onda que já se formava. Então era isso o mar, o pai havia falado tanto, mas tanto, contudo, apesar da sua descrição entusiasmada, ela não pensou que fosse tão grandioso.
Passou um longo tempo naquele movimento, tomando coragem para mergulhar, queria que aquela água azul, tépida e salgada a cobrisse. Os olhos tentavam abarcar aquela imensidão. Admiração não descrevia o sentimento exato, como podia algo ser tão belo? Era bela a cor, o movimento, o barulho, nunca pensou que houvesse algo assim no mundo, estava hipnotizada e a depender dela não sairia dali tão cedo.
A barra do vestido completamente molhada, a cada onda que vinha ela levantava a saia e entrava mais um pouco. Olhou em volta, viu algumas meninas tomando banho e brincando, estavam de maiô, ela não tinha um, mas queria sentir a onda passando por cima dela. Olhou na direção onde o pai estava, ele e o tio continuavam a conversar animados. De vez em quando o pai se certificava que ela estava ali, próximo a eles, brincando de vai e vem com o mar, a olhava com aquele olhar amoroso que só tinha pra ela e gritava:
– Não disse que você ia gostar? Mas tenha cuidado, não entre, fique só aí.
Quando ele desviou a vista ela entrou mais um pouquinho, como era gostoso sentir aquela água bater em seu corpo, o vestido agora molhado até a cintura, a saia rodada boiava à sua volta, tornando mais intenso o azul da água. Aquela sensação não era comparável a nada que já tivesse sentido antes. Pensou como o tio era feliz por morar em frente ao mar, dormir ouvindo a sua cantiga, acordar e ter a frente toda aquela beleza.
Quem dera morasse ali, todo dia brincar de vai e vem com as ondas, sentir aquela sensação gostosa que lhe invadia agora. Tomou coragem e mergulhou, uma onda mansinha, passou por cima dela, na próxima, em vez de mergulhar, deixou que ela a levantasse e levasse até a areia. Era bom demais aquilo. Em uma local um pouco mais fundo, a água formou uma piscina e ela ficou ali boiando, imaginando como seria ver o sol nascer e se por naquele mar. A voz do pai a trouxe de volta do mundo azul onde estava mergulhada.
– Vamos garota, ou pensa que vai virar peixe? Ou uma sereiazinha? Sim, está mais pra uma sereia. Venha, sua tia está chamando para almoçar. Saiu a contragosto, andando e olhando pra trás, não queria nunca mais se afastar daquele mar. Apertou a mão do pai e pediu:
– Promete que me traz toda semana, promete.
– Não posso prometer meu bem, porque será difícil cumprir, mas prometo, sempre que puder nós viremos novamente, está bem?
Não era o que queria ouvir, mas assentiu com um movimento de cabeça. Apertando mais a mão do pai, insistiu:
– Podemos ficar hoje até o pôr do sol? O tio disse que é muito lindo. Quero ver ele indo embora, sumindo na água.
O pai a olhou admirado, não pensou que ficaria tão deslumbrada, e concordou.
– Está bem, isso dá pra ser feito hoje.
Deitada na varanda passou a tarde olhando o mar, sentindo seu cheiro e ouvindo o marulhar das ondas, disse para o pai que parecia uma cantiga, adormeceu. Acordou com o pai chamando:
– Está na hora! Vamos lá, nos despedir do sol sentados na areia.
– Posso entrar de novo?
– Não, pode sentar e deixar molhar só os pés, porque depois já iremos embora.
Sentou na areia e respirou fundo, queria guardar aquele cheiro, não sabia quando veria o mar novamente. O sol começou a mergulhar, ao redor os raios de ouro aos poucos ficaram rosados, mesclados com o dourado. Não conseguia parar de olhar, foi se escondendo até ficar só um risco vermelho bem fininho, que foi sumindo, sumindo, e então a quietude invadiu a terra.
O pai a ajudou a levantar-se e viu as lágrimas em seu rosto.
– Por que está chorando?
– Eu não sei, me deu vontade, lembrei de você tocando aquela música que diz “é doce morrer no mar”, você canta pra mim hoje? Agora vou entender melhor.
Caminharam de mãos dadas pela areia branca e se foram, mas o encantamento daquele dia permaneceu. O encontro com o mar foi um sonho recorrente durante toda a vida da menininha de vestido azul.

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Marlene Marques Ávila

E-mail: marquesavilamarlene@gmail.com

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