Marlene Marques Ávila
Desde a data, em que pela minha contagem do tempo foi a festa do Hanukkah, já se passaram mais ou menos trinta dias, então estamos janeiro, o que significa que nosso cativeiro já dura cerca de três meses. Penso sempre em minha família, principalmente em minha mãe, e também em Khalid, como gostaria de estar com ele, de conversar, há tanto para ser dito. Talvez ele pense que esse sequestro me afastou ainda mais dele, mas é o contrário.
Ouvir as histórias de Ruba me ajudava a passar o tempo. Ela falava sobre o sofrimento dela e da família, de como perdeu o pai em uma das muitas guerras entre nossos povos, a revolta que sente pelos filhos crescerem sem pai, prisioneiro em Israel há mais de dois anos. Contou-me que um dia ele saiu para o trabalho e não retornou; foi preso sem nenhuma acusação formal, sem um processo judicial, não tem como se defender porque não sabe qual é a acusação, uma situação desesperadora em que o acusado não sabe o que contestar uma vez que o motivo da prisão não é conhecido.
Foi então que Ruba entrou para o Hamas, sua revolta e desespero foram os motivos, viu aí o caminho da resistência. Isso me fez refletir, e lembrar de minhas conversas com Khalid, quando uma das teclas em que eu insistia era a questão do fanatismo e como isso tira a racionalidade de qualquer processo de acordo e negociação. Os argumentos dele não eram tão contundentes quanto os de Ruba, porque na verdade, ele é um palestino privilegiado, estudou na Inglaterra, trabalha em uma empresa internacional, conhece bem a história do seu povo, é verdade, mas diferente de Ruba, ele nunca vivenciou acontecimentos tão dramáticos pelo simples fato de ser palestino.
O pai dele e principalmente o avô sofreram por terem sido retirados de sua terra, perdido tudo, foram obrigados a recomeçar em outro lugar, mas Khalid não viveu esse drama; por isso era tão mais fácil a discussão com ele, mas com Ruba é difícil argumentar, os fatos são irrefutáveis.
A senhora Eva, não conseguia entender o que eu conversava tanto com Ruba, muito menos a simpatia, que percebia, agora eu nutria por ela, tentei fazê-la compreender que há certo e errado, nos dois lados da história, mas foi em vão.
– Não entendo como você pode dizer isso, o que fizemos de errado? Voltar para nossa terra depois de passarmos por tudo que passamos durante a segunda guerra? Qual foi o nosso erro? Como pode você simpatizar com nossos algozes, mesmo depois da agressão que sofreu? Não me sentia com ânimo para discutir com ela, pensava que certamente aquela seria a reação da esmagadora maioria do meu povo, mas me consolava a certeza que havia mais pessoas que pensavam como eu, então eu mudava de assunto.
Em uma de nossas conversas, Ruba disse-me que ouviu falar, ela não sabia detalhes, mas estava em curso um processo de negociação de troca de reféns israelenses por prisioneiros palestinos, alguns possivelmente na mesma situação do marido dela, pois aprisionar palestinos sem nenhuma causa, era algo corriqueiro em Israel, disse com amargura. Uma expectativa se abriu, contudo, muito tempo se passou, e nada aconteceu, eu perguntava a ela que me respondia, às vezes de forma ríspida.
– Seu primeiro ministro não está preocupado com vocês, por isso as negociações não avançam. O que ele quer mesmo é acabar conosco e tomar Gaza, isso sim, ele está encaminhando bem!
Os sentimentos de esperança e desalento se alternavam, será que ela tinha razão? Por que já estávamos ali embaixo há tanto tempo, sem saber se era dia ou noite, naquela dura condição que nos levava a duvidar se sobreviveríamos, ou se a intenção do Hamas era nos impingir aquela morte lenta que nos consumia física e psicologicamente. Eu pensava sempre sobre o que Ruba falara das dificuldades de negociação com Israel, e o que será que o resto do mundo estava fazendo a respeito; alguém estaria se importando com o que acontece aqui?
À medida que o tempo passava eu procurava preenche-lo fazendo algo útil, me dediquei a cuidar de Rebeca, o emagrecimento dela chamava atenção, naquela idade a falta de alimentos era bem mais grave que para nós adultos. Falei com Ruba, mas ela disse que não poderia fazer muita coisa, mesmo assim, passou a trazer uma ração de pão e água a mais para a menina, uma vez que nos alimentávamos apenas uma vez a cada vinte e quatro horas. Eu estava conversando com dona Eva sobre Rebeca, quando um homem entrou na sala e disse algo para Ruba, que imediatamente olhou para nós, percebi que havia acontecido alguma coisa fora da rotina. Ela se aproximou e disse que iríamos embora.
– Para onde? Perguntei.
– Vocês serão trocadas por prisioneiros que estão nas suas prisões.
– Todos nós? E quando sairemos?
– Só vocês mulheres, e a criança. Creio que ainda essa semana, estão finalizando as negociações.
A expectativa continuou ainda por um tempo, e aquela foi a última vez que vi Ruba, ela foi substituída por um dos homens encapuzados que ficou conosco num tempo de mais ou menos três dias, nos quais tentei não ser vista, ficava sempre junto a dona Eva e Rebeca, falando o menos possível. Por algum tempo passaram a nos servir duas refeições diárias, até que um dia nos vedaram e nos tiraram de lá. Percebi que saíamos do túnel, senti o calor do sol enquanto alguém me empurrava para dentro de um carro que partiu.
Rebeca apertava fortemente minha mão, eu a trouxe para junto de mim e fizemos o trajeto abraçadas. No carro eu discernia a voz de três homens, eles falavam sobre a troca de prisioneiros, nós três e mais outras duas pessoas seríamos trocadas por quase quatrocentos prisioneiros palestinos, pensei se algum deles seria o marido de Ruba, torci para isso.
O trajeto percorrido não foi tão longo, então o carro parou, tiraram nossas vendas e fomos puxadas para fora do carro e recebidas por voluntários que nos acolheram e nos encaminharam rapidamente para um veículo da Cruz Vermelha, nos levando direto para o hospital. O local em que isso ocorreu estava coalhado de homens do Hamas, soldados israelenses e jornalistas. Tentando acostumar os olhos à luz do sol, olhei para todos os lados, eu tinha certeza que Khalid estava ali, mas não o vi.
Dona Eva e Rebeca ficaram no hospital, mas eu fui liberada após os exames constatarem que fisicamente, meu estado não requeria cuidados. Meus pais me aguardavam e quando os abracei, chorei enfim tudo que sufoquei no cativeiro em todo aquele tempo em que lutei para me manter forte.
E-mail: marquesavilamarlene@gmail.com
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