Os órfãos da guerra


Marlene Marques Ávila

Entramos no quarto mês da guerra desencadeada pelo ataque do Hamas. Israel contra-atacou com todo seu poderio bélico, centrando fogo na Faixa de Gaza, por ser o reduto dos terroristas, não houve a preocupação com mais de dois milhões de pessoas que viviam na área. Ali, nenhum lugar é seguro e o mundo tem assistido horrorizado, mas impassível, ao massacre do povo palestino.
Pedi a Daniel que falou com os pais de Fabio e eles me permitiram usar o material da câmera do filho. Ele gravou praticamente toda a festa e o atentado até o momento em que perdeu a câmera, tentando fugir do inferno. Há cenas brutais do ataque à festa rave, as quais usei em um documentário publicado pela BBC News, o que me deu algum destaque, mas, como digo para os amigos jornalistas, foi pura sorte estar ali – como soa irônico, ter sorte por estar em um momento como aquele – e quanto às fotos e vídeos foi mais sorte ainda, entre o meu material e o de Fábio, consegui um registro muito completo daquela noite.
Aproveitei também um farto material sobre Beeri, Fábio tinha muitas fotografias do kibutz, e fiz um documentário mostrando como era e como ficou após a destruição. A repercussão foi imediata, recebi milhares de mensagens de israelenses e também de palestinos nas quais a tônica era o horror e a indignação.
Se fez um fio de luz na escuridão ao verificar que nos dois lados havia pessoas que não concordavam com as ações extremistas do conflito; fiz um esforço para valorizar isso, apesar do apoio explícito que ambos os lados receberam.
Tenho coberto o confronto na Faixa de Gaza, e conhecido de perto todo o horror dessa guerra, visto nos olhos das mulheres e crianças o medo e o desespero. Esse desespero estará também nos olhos de Deborah? A quais horrores ela é submetida no cativeiro? É uma garota corajosa, eu sei, mas sei também como podem ser extremos os sofrimentos e ultrajes que alguém na condição dela pode passar.
Tento espantar esses pensamentos e concentrar-me na menina à minha frente, entre os escombros ela agarra com força a mão do irmãozinho. Pergunto a ela seu nome – Dahra – responde. Pergunto onde estão os pais deles.
– Acho que morreram, caiu uma bomba que pegou nossa casa, eu e Malik, olhou para o irmão, a gente tinha ido para a escola, quando voltamos não tinha mais casa, os vizinhos disseram que eles morreram.
– E você vai para onde agora?
– Vou voltar para a escola, lá deve ter comida pra nós, estamos com fome.
– Posso ir com vocês?
Ela me olhou e puxou o irmão mais para junto de si.
– Não tenha medo Dahra, só quero ver como estão as crianças na sua escola.
Seguimos, a escola não ficava tão distante do local onde estávamos. Lá chegando procurei a pessoa responsável, me disseram ser a professora Celina, a encontrei arrumando alguns colchonetes em uma sala de aula. Me identifiquei, ela perguntou se eu poderia ajudar enquanto conversávamos e apontou para a pilha de colchonetes.
Me contou como não teve opção, num dia dirigia uma escola, no outro um abrigo para os alunos que para ali voltavam porque ao chegar em casa, essa já não mais existia; alguns voltavam com a mãe, ou o pai, dificilmente com os dois, e outros vinham sozinhos como Dahra e Malik.
– São milhares de órfãos, crianças que perderam um dos pais ou os dois, a casa, a família, vagam pelas ruas destruídas sem ter para onde ir ou com quem contar, passando fome e sede e completamente expostas a todo tipo de ameaças, as quais como deve imaginar, são muitas, nesse cenário de violência.
Ela explicou que com ajuda da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados Palestinos conseguia alimentos e dinheiro para pagar a equipe que se dedicava a cuidar das pessoas, e continuar na medida do possível as atividades educacionais com as crianças, já que tivera que transformar as salas de aula em dormitórios e um ambulatório.
Contudo, naquele momento o que elas mais precisavam era de apoio psicológico e emocional, o que de alguma forma era feito pelas mães que ali se encontravam, elas tomavam para si os cuidados com as crianças, como se suas fossem, algumas tinham perdido seus filhos, outras tiveram a sorte de continuar com eles, e ali compartilhavam o cuidado, o consolo e a dor da perda.
– Elas se esforçam, mas é muito difícil, até ontem tínhamos dificuldade para falar sobre morte com nossas crianças, afinal porque abordar esse tema tão espinhoso com elas nessa idade? E de repente a morte é esperada todos os dias, não é mais o que virá a acontecer no futuro, não há mais um futuro, a morte está onipresente.
As crianças vêm para a escola e sabem que podem voltar e não mais encontrar seus pais, sabem que podem ser colhidas por uma bomba aqui mesmo ou à caminho de casa, ou na rua jogando bola, não há lugar seguro, e temos que ajudá-las a elaborar suas perdas, quando nós vivemos o mesmo luto, sei que é difícil entender essa dor. Calou-se a fitar algo invisível para mim, depois de um momento continuou.
– Mas Khalid, nós já estamos chegando ao nosso limite, temos aqui quase o dobro de pessoas que podemos abrigar, não sei como terei coragem de dizer não, mas será preciso. Além de que aqui também não é seguro, a qualquer momento a escola pode ser bombardeada, já aconteceu com outras. É urgente levar essas crianças para um local seguro, me sinto como guardiã desse futuro incerto, mas se houver um, como será construído se faltarem os construtores?
Prometi a ela que faria o possível para divulgar essa situação e sensibilizar o mundo para o que acontecia com as crianças em Gaza. Pedi permissão para fazer algumas fotos e saí dali com a ideia fixa em uma matéria que mostrasse toda a extensão desse drama.
Fiz um novo documentário "Infância profanada" dividido em duas partes, a primeira mostrava a difícil infância das crianças palestinas que vivem em territórios ocupados, onde é sistemática a violação dos seus direitos mais básicos e o agravamento dessa situação com a guerra em curso, onde milhares foram mortas e outras tantas ficaram órfãs; a segunda parte mostrou as ações de acolhimento como a da escola da professora Celina, bem como a urgência da criação de um espaço neutro, onde suas vidas estivessem mais seguras.
Novamente, o retorno foi imediato, centenas de mensagens, dessa vez praticamente um consenso, e sim o fio de luz se alargou, não foram poucas as mensagens de israelenses que demonstraram apoio e solidariedade com os órfãos da guerra. Estava pensando em como dar continuidade a algo que eu ainda não sabia exatamente o que seria, quando meus pensamentos foram interrompidos por uma ligação de um amigo jornalista.
– Há rumores de um acordo de cessar fogo e haverá troca de reféns por prisioneiros palestinos, já está sabendo alguma coisa? No mesmo instante a lembrança de Deborah, mais forte que uma simples lembrança, pois eu quase sentia sua presença física ao meu lado se impôs, e me concentrei em buscar detalhes sobre a operação.



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Marlene Marques Ávila

E-mail: marquesavilamarlene@gmail.com

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