Marlene Marques Ávila
A noite foi fantástica, ir à uma rave no Negev nunca esteve em nossos planos, porém um imprevisto na organização da festa contribuiu para estarmos lá naquela noite. Próximo ao amanhecer faltou eletricidade, o que causou certo tumulto, mas nada demais, algumas pessoas até gostaram porque daria para apreciar melhor o céu matizado de rosa e dourado. Aos poucos o ambiente ficou mais quieto, soprava uma suave brisa que antecede o nascer do sol, sons de conversa, pessoas fotografando, aquele momento foi como um instantâneo de paz no contexto do que tinha sido a noite de festa.
De repente essa tranquilidade foi quebrada por um barulho ensurdecedor. A princípio as pessoas acharam que a eletricidade havia voltado e o DJ queria colocar uma última música, porém os gritos que se seguiram nada tinham de festivos, eram pedidos de socorro, gritos de desespero. Pela expressão de Khalid algo muito grave estava acontecendo, pegou no braço de Deborah e me chamou.
– Daniel, vamos rápido, precisamos encontrar um abrigo.
– Mas preciso encontrar Diana e Fábio, eles ainda...Minha frase foi cortada por outro barulho ensurdecedor que então não deixava dúvidas, eram tiros de metralhadora, corremos, agora vendo as explosões para onde quer que olhássemos.
– São granadas disse Khalid, vamos rápido, o carro está nessa direção. Daniel, é horrível dizer isso, mas não dá para irmos agora atrás dos outros, vamos torcer que eles consigam se abrigar. Estamos muito próximos à Gaza, é quase certo ser o Hamas.
Khalid sabia o que dizia, a essa altura o local já estava completamente invadido pelos militantes do Hamas que atiravam indiscriminadamente. Enquanto corríamos para o carro vimos centenas de pessoas que faziam o mesmo, contudo muitos foram mortos antes de completar seu intento. Quanto mais nos aproximávamos do estacionamento, mais intenso era o tiroteio. Homens que chegavam de parapente atiravam naquela direção, vimos focos de incêndio na área do estacionamento, muitos carros incendiados, alguns com as pessoas dentro. Khalid parou por um minuto, pensando o que fazer. Naquele momento uma granada explodiu bem próximo a nós, caímos e por um tempo fiquei atordoado, quando consegui me recompor vi Khalid levantar-se, mas não enxerguei Deborah; desesperados procuramos em volta, havia muitos corpos, mas ela não estava ali. Tirando forças de sabe-se lá onde, Khalid pressionou meu braço:
– Vamos, precisamos tentar ficar vivos, temos que nos afastar do estacionamento, é um dos locais mais alvejados. Vamos por aqui, nessa direção fica o pomar que avistamos ontem ao chegar, lá teremos uma chance. Corri na direção indicada por ele, mas não conseguia parar de pensar em Fábio e Diana e o que teria acontecido com Deborah.
O tiroteio continuava intenso, víamos os homens do Hamas em todos os lugares, os vimos alvejando os banheiros químicos, muitas pessoas tinham se abrigado ali; jogavam granadas em todas as direções, e o mais aterrorizante, estavam fazendo reféns. Jogavam as pessoas nas vans, em que tinham chegado, como se fossem algum objeto, ao mesmo tempo que clamavam por Alá, mas pensei que suas aclamações também não seriam ouvidas, uma vez que os gritos de socorro das vítimas não encontravam eco. Por que Alá ouviria os algozes? Enquanto corríamos atrás de um esconderijo, centenas de pessoas estavam mortas ou feitas reféns. Como estariam meus amigos?
Chegamos ao pomar e nos escondemos entre as árvores, outras pessoas também estavam ali, algumas feridas, outras em choque, sem compreender o que tinha ocorrido; como a celebração da paz, da liberdade terminara daquele jeito? Próximo a mim, um jovem, talvez dezoito anos, apenas um garoto, não parava de chamar por Chloe.
– Por que não tive forças para trazê-la? Me desculpe Chloe, por favor venha, venha, não me deixe aqui sozinho.
Tentei acalmá-lo, mas foi em vão, tudo que ele queria era saber se eu tinha visto Chloe, alguém a viu? É uma menina linda, cabelos ruivos, olhos de esmeralda, usava jeans e camiseta, ela caiu quando corríamos, o coração bordado na camiseta estava cheio de sangue, não consegui levantá-la, corri junto com os outros e a deixei lá...a deixei lá.
Khalid estava calado, eu sabia que pensava em Deborah, será que seu destino havia sido igual ao de Chloe? Não tive forças para falar nada, apenas passei o braço por seus ombros e o abracei forte.
Depois de algum tempo os tiros cessaram, em nosso esconderijo nos entreolhávamos ansiosos, com receio de sair e ser alvejado, estávamos ali paralisados, então Khalid tomou a iniciativa, saiu e daí a pouco tempo retornou.
– Vamos, há soldados de Israel na área, estão revirando o local em busca de sobreviventes e encaminhando os feridos para o hospital.
Khalid verificou se seu celular estava funcionando e fez duas ou três ligações, olhei para ele curioso, me explicou estar ligando para jornalistas amigos, dando a nossa posição. Em seguida se apresentou como correspondente da BBC a um militar israelense que aparentemente comandava a operação e pediu para participar da busca por sobreviventes, havia perdido uma grande amiga, explicou, a enfermeira israelense que estivera de serviço na rave, precisava encontrá-la, também um casal de amigos de nacionalidade brasileira. O militar pediu a identificação dele e checou com alguém, antes de autorizar, também me identifiquei e disse que os dois brasileiros desaparecidos eram meus amigos, estávamos em viagem de turismo com a volta marcada para dali há uma semana. Khalid perguntou detalhes sobre o atentado, havia sido ataques simultâneos em diferentes locais, alguns kibutzim haviam sido arrasados, ele informou. De imediato pensei em Beeri, mas agora havia algo mais urgente a fazer.
Eu e Khalid começamos a procurar, mas só me deparava com a morte e pedia a Deus que ela não tivesse encontrado meus amigos, era algo egoísta mediante tanta gente morta, mas não podia evitar de rogar para que nenhum daqueles corpos sem vida fosse o deles.
Na dolorosa tarefa, me perguntava por que. Era algo inconcebível, por que matar tanta gente inocente, a maioria jovens no começo da vida, divertindo-se em uma festa que usualmente celebrava a paz, a harmonia, a alegria de viver. Quantas vidas foram dizimadas ali daquela forma estúpida? Quantos sonhos e planos naufragados? Muitos casais de mãos dadas, último gesto de carinho ou de apoio.
Em baixo do corpo de uma moça encontrei o inesperado, a câmera fotográfica de Fábio; paralisei, apanhei com todo o cuidado, mas era como se estivesse sem controle sobre meus movimentos, minhas mãos tremiam, na verdade todo meu corpo tremia, minha mente recusava aceitar o que aquilo podia significar.
O objeto estava inteiro, segurei como se fosse algo sagrado; em meu atordoamento ouvi a voz de Khalid que estava alguns metros à minha frente, não distingui o que dizia, mas quando o olhei vi lágrimas em seu rosto, me perguntei por quem choraria, não consegui ficar de pé, literalmente me arrastei até onde estava, sem sequer ver os corpos sobre os quais passava, e lá estavam Diana e Fábio num abraço definitivo.
E-mail: marquesavilamarlene@gmail.com
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