Contos de guerra – À leste de Gaza


Marlene Marques Ávila


Estávamos em Israel há alguns dias e finalmente chegou o momento de ir para a Faixa de Gaza encontrar Khalid, nosso amigo palestino a quem devemos a motivação desta viagem. Levi, nosso guia judeu nos convenceu a conhecer um kibutz, então hoje passaremos o dia e dormiremos lá, na casa de um parente dele.
No trajeto nos contou que seus pais o haviam criado naquele kibutz, uma comunidade agrícola com cerca de oitocentas pessoas, onde a vida era harmoniosa, alegre, havia paz e solidariedade. Ficava próximo à Gaza, onde sua família, assim como muitos outros kibutznicks tinham amigos. Nos explicou que, apesar do recrudescimento da rivalidade ancestral entre palestinos e judeus desde a criação do Estado de Israel, a coexistência entre eles e os palestinos moradores da Faixa de Gaza é pacífica.
Chegamos em Beeri quase ao meio-dia, Yosef, primo de Levi, nos aguardava. Na varanda, em uma pequena mesa, a bandeja de frutas e uma jarra de suco, pela cor concluí que era de romã, salivei em pensar naquele sabor delicioso. Fomos cordialmente acolhidos, comemos tangerinas e tâmaras como só tem em Israel, e sim, eu estava certo matamos a sede com o suco de romã.
– Yosef, esses são meus amigos brasileiros sobre quem falei, Daniel, Diana e Fábio, esses dois estão noivos. Fiz questão de trazê-los aqui, para mostrar-lhes um kibutz, afinal minha missão como guia é levar os turistas a conhecerem o país, eu me esforço.
– Sejam bem-vindos à minha casa, venham vou mostrar suas acomodações. Falou Yosef em bom inglês.
– Se quiserem, dá tempo tomar um banho antes do almoço. Fiquem à vontade. Foi exatamente o que fizemos, banhados e de roupa trocada voltamos à varanda onde os dois nos aguardavam.
– Vamos, o almoço é no refeitório coletivo. Nos entreolhamos surpresos, é certo que Levi havia discorrido sobre a inspiração socialista dos kibutzim, mas não achamos que seria tão ao pé da letra. Contudo mais surpresas nos aguardavam.
Na volta, Levi avisou que precisava descansar e nos deixou com Yosef. Ele nos convidou a caminhar pelo kibutz, por suas ruas arborizadas, – estávamos mesmo no deserto? Me perguntei – tantas árvores e pássaros; nas proximidades das casas, jardins floridos, as ruas completamente limpas. Vimos poucos carros transitando, porém, muitos ciclistas. Passamos em frente a uma casa onde ele disse ser a de seu filho adolescente, Diana exclamou:
– Tão jovem e já casado?
– Não senhorita, viver sozinho nessa idade é uma maneira de ensinar a enfrentar a vida, é um costume nosso.
– Ah, entendi, me parece um bom costume, com certeza aqui não existe a geração nemnem. Claro que na falta de um correspondente em inglês, ela pronunciou a palavra em português mesmo, Yosef a olhou surpreso.
– Desculpe, o que disse?
– Oh, por favor eu é que devo pedir desculpas, é um termo usado em nosso país para falar de jovens que nem estudam, nem trabalham, um sintoma da nossa desigualdade social.
– Acho que entendi sim, disse Yosef a olhando pensativo.
– Vejam, esse prédio à nossa esquerda é uma grande gráfica que temos aqui, é hoje a nossa principal atividade econômica, juntamente com a galeria de arte. Mais tarde poderemos ir conhecer, se vocês quiserem. Fábio se animou.
– Quero muito sim, vi há algum tempo um catálogo com pinturas e fotografias incríveis de artistas israelenses!
– Combinado então, terminaremos nosso passeio na galeria.
Mais à frente Yosef mostrou a clínica, onde sua esposa trabalha, explicou que ela não se encontrava porque precisou levar uma criança de Gaza a um hospital em Israel. Dessa vez fui eu que fiquei surpreso, é certo que Levi havia falado algo sobre isso também, mas não achei que chegasse a esse ponto de convivência e solidariedade. Nem precisei perguntar nada, ele explicou:
– Sim, apesar da mídia só mostrar os conflitos, nós temos uma boa convivência, palestinos de Gaza trabalham em Beeri, suas crianças pequenas, se os pais quiserem, vêm para a nossa escola, e quando têm algum problema de saúde que nossa clínica não resolve, os levamos aos serviços de saúde em Jerusalém.
Enquanto caminhávamos, Fábio não cansava de fotografar. De minha parte, estava atento a tudo que Yosef falava, refletindo sobre a vida ali, naquele lugar tranquilo, longe de toda a agitação das grandes cidades, mas ao mesmo tempo oferecendo tantas comodidades da vida moderna, afinal, como Levi nos havia informado, Israel se destaca mundialmente na tecnologia e inovação. Aquela caminhada foi esclarecedora sobre a vida em Beeri.
– Aqui ainda mantemos o modelo original dos kibutzim, a diferença maior é nossa fonte de renda, hoje não é mais apenas a agricultura, ainda plantamos e comercializamos alguns produtos agropecuários, mas as principais atividades econômicas são a gráfica e a galeria de arte, como falei.
– Senhor Yosef, estou curiosa, os espaços coletivos, como as escolas, restaurante, áreas de lazer, a biblioteca que vimos ali atrás, como são mantidos?
– Essa é uma pergunta, senhorita, que todos fazem, porque no modo de vida capitalista esses serviços são vendidos a quem pode comprar, mas aqui nós somos como uma grande família, nosso salário é entregue para o kibutz, a administração divide de forma igual para todos e faz um fundo de reserva que mantém tudo funcionando. Nesse aspecto, nossa vida é bem tranquila.
– Isso é tão utópico.
– Isso, é na verdade, incompreensível para o seu modo de vida, para nós é o correto, se é uma utopia, temos vivido nela há muitos anos e a construímos a cada dia, desde que nossos avós aqui chegaram, e lhe asseguro, tem sido muito concreto.
– E a questão religiosa, todos aqui são judeus?
– Nem todos, temos diversidade religiosa, funciona assim, nos espaços coletivos os ritos e símbolos do judaísmo são respeitados; o espaço coletivo do culto é a sinagoga, onde quem não é judeu não tem a obrigação de frequentar, mas no interior de sua casa você cultua o que acredita, faz seus ritos específicos. Em que você crer e a forma como cultua é algo que só lhe diz respeito, e não é objeto de rejeição ou discussão no grupo. Vivemos em uma comunidade com valores plurais, prezamos por isso. Mas devo dizer a vocês, para não ficarem com uma ideia errônea, que não é mais assim em todos os kibutzim, muitos hoje são privatizados e não mais seguem esses valores originais dos pioneiros sionistas socialistas, que para cá vieram fugindo dos pogroms no Leste Europeu. Contudo, particularmente, eu sinto que a forma como vivemos aqui nos aproxima mais de nossa verdadeira natureza humana.
Ouvindo Yosef falar daquela forma me veio à lembrança o livro O navegante, o qual li há muitos anos atrás, era da biblioteca de minha mãe, que me contou ser o autor, Morris West, leitura obrigatória em sua adolescência. Claro que não lembro mais os detalhes, mas o foco da história era a necessidade de reinventar um modo de vida, fugir dos valores supérfluos que regem a sociedade moderna. As pessoas que viviam em Beeri, aquele pequeno paraíso conseguiram isso, e mais incrível, o paraíso era no meio de um deserto considerado estéril até pouco tempo, afinal, o que é um século na história da humanidade? Pensei que talvez me voluntariasse para passar um tempo em Beeri. Meus pensamentos foram interrompidos pela voz de Yosef.
– Pronto senhor Fábio, temos aqui um dos nossos principais espaços de arte, a Galeria de Arte Contemporânea Beeri, onde você encontra arte e cultura do nosso país. Se vocês me dão licença, vou deixá-los à vontade, retorno daqui a uma hora, será tempo suficiente?
– Sim, creio que sim, obrigada Senhor Yosef.
– Por favor, me chame de Yosef.
– Combinado! Então nada mais de senhor Fábio certo?
Yosef se foi e nós entramos na Galeria, um espaço amplo com piso e paredes claras, concreto, madeira e vidro em um perfeito equilíbrio. Fábio estava particularmente interessado em uma pintura, a qual lembrava ter visto num catálogo e lhe encantara, ele fizera até uma fotografia. Era a pintura de uma figura feminina com rosto de coelho, placidamente sentada, muito ereta, o corpo todo coberto por um longo vestido. Infelizmente, essa obra não estava mais exposta. Fábio perguntou à recepcionista, que nos informou ser um quadro de Nadine Bar-Noy, uma artista em cujas obras a figura do coelho é recorrente, fizera uma exposição ali há pouco tempo, ela esclareceu.
A decepção de Fábio logo passou, porque entre as obras de arte então em exibição, estavam esculturas habilidosamente feitas com os mais diversos materiais, vídeos, fotografias, pinturas, que nos seduziram. Eu, particularmente, mergulhei em uma aquarela de Adam Leef, não sabia definir se era céu e mar, se céu, se mar, mas mergulhei naquele azul e fiquei em paz. Daquela quietude fui novamente retirado pela voz de Yosef nos chamando. Já se passou uma hora? Eu poderia ficar ali o resto da vida!
– E então, vamos lá? Acho que vocês viram o principal por aqui, vamos retomar o caminho de volta, mas antes passaremos na padaria, o pão daqui é muito bom. O que acham de ao invés de jantarmos no refeitório ficarmos em casa? Nesse momento senti o cheiro agradável de pão recém saído do forno.
– Por mim está ótimo, o que acham? Diana e Fábio assentiram.
Entramos e compramos três ou quatro tipos de pão. Yosef disse que em casa tinha queijo artesanal fabricado em Beeri, e um bom vinho, também produzido em um kibutz, que por sinal tem a maior vinícola do país. A noite prometia. Levi nos aguardava na varanda, parecia renovado, o que não faz um bom descanso!
– Venham, preparei um suco de romã, sei que adoram, vamos nos sentar aqui, vocês agora verão nosso fim de tarde, para mim é um momento quase sagrado. No deserto, a hora em que a noite abraça o dia e o esconde em seus mistérios só tem beleza igual no amanhecer, quando enfim o sol ressurge e joga luz sobre a terra. É de uma beleza e paz contagiantes.
Mediante essa descrição, ficamos calados, o que dizer? As palavras de Levi só aumentaram nossa expectativa daquela primeira noite no Negev. À medida que o sol descia tingia a terra de tons dourados, o céu decorado com nuvens muito brancas que formavam diferentes figuras, entre uma e outra, o azul intenso. A beleza da metáfora de Levi se materializou ante nossos olhos e fomos invadidos pela paz daquele momento.
Quando enfim retornamos da espécie de transe em que estávamos, demos conta que Yosef já havia preparado uma bela mesa com pães, queijos, tâmaras e vinho, e nos convidava a entrar. Conversamos animadamente sobre todas as coisas que vimos desde a hora em que chegamos ao kibutz e como tudo era surpreendente para nós. Mais uma vez expressei minha vontade de passar mais tempo ali, fazer uma imersão naquele modo de vida que me impactou tão completamente, me fazendo rever e duvidar de tantos conceitos e valores, sobre os quais, agora já não tinha tanta certeza.
– Se seu interesse se confirmar, tem um escritório que cuida do programa de voluntariado nos kibutzim, mas devo lhe dizer que nem sempre é certo o voluntário ir para um kibutz de sua preferência, mas você pode tentar, às vezes funciona. Lhe passarei o contato deles.
– Fico muito grato Yosef, estou decidido a isso, conhecer um lugar como esse, vê uma realidade tão distante do que a mídia usualmente mostra, de conflito e beligerância rotineiras, é verdade, não podem ser negadas, mas vocês aprenderam a conviver e superar. Judeus e palestinos vivendo em harmonia, sendo solidários, é algo, até ontem, inimaginável para mim. Uma coisa assim, faz a gente questionar alguns valores. Viver mais tempo aqui me aperfeiçoará muito como ser humano, tenho certeza.
Conversamos mais algum tempo, Fábio e Diana pediram licença, queriam ficar a sós e foram para o quarto. Levi e Yosef também precisavam se recolher; um, justificou-se, precisava estar disposto e descansado para nossa excursão no deserto no dia seguinte, e ainda tinha que checar alguns detalhes de forma a não termos contratempos; o outro, estava cansado, andara conosco toda a tarde. De minha parte, estava muito eufórico para dormir, enchi mais uma taça de vinho e fui para a varanda. Era a primeira noite que eu passaria no deserto e queria ver o céu estrelado mais lindo do mundo, pelo menos era o que achava meu amigo Khalid.
Era uma noite amena de outono e o céu parecia mais próximo. Saí para caminhar sob as estrelas e egoistamente pensei, que bom todos terem se recolhido e me deixado aqui sozinho nesta noite tão bela e silenciosa, assim, posso desfrutar completamente de tanta beleza e paz. As estrelas, como eu nunca avistara antes em tão grande número, nem tão brilhantes, pareciam mais perto da terra, me veio à lembrança a passagem no Livro do Gênesis, quando Deus criou os astros para que resplandecessem no firmamento iluminando a terra, e como resplandeciam!
Pela primeira vez me ressenti de não saber nada de astronomia, a única constelação que eu conhecia era a das Três Marias, aprendera com minha avó quando criança, ela apontava as três estrelas dispostas em linha reta e me dizia o nome. Bem mais tarde vim a saber que aquelas estrelas estão na constelação de Órion. A procurei naquele turbilhão resplandecente, mas não a encontrei, em compensação localizei Saturno, havia visto uma vez no planetário e ficara maravilhado com seus anéis, sim, ali estava Saturno.
Não sei quanto tempo fiquei sob aquele céu estrelado, uma vez ou outra, via uma estrela cadente, minha avó costumava dizer pra fazer um pedido sempre que visse uma, desejei sinceramente conseguir voltar ali, talvez para ficar. Como poderia saber que aquela era a penúltima noite do paraíso?

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Marlene Marques Ávila

E-mail: marquesavilamarlene@gmail.com

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