Marlene Marques Ávila
O vi de longe, caminhava devagar, quase se arrastando, à medida que me aproximava conseguia ver seu estado lastimável. Coberto de poeira, as roupas rasgadas, mudava a passada como se o corpo estivesse pesado demais para movê-lo pra frente. Devia ter entre oito, nove anos, difícil saber neste local de tantas privações, as quais se agravaram ao extremo, desde o início desta maldita guerra.
Parei ao lado do menino e foi impossível conter a expressão de horror. A criança tivera o braço direito arrancado, continuar vivo era um milagre. O sangue seco formava uma camada escura ao lado do corpo desde o tronco aos pés, os lábios ressequidos; os olhos, tive que desviar a vista, porque além do medo continham todo o desespero que um olhar é capaz de conter.
– Não tenha medo, não lhe farei mal, sou palestino como você, falei segurando o tremor na voz. Por que está aqui sozinho? Pra onde vai? Articulei devagar as palavras, o fiz de modo inconsciente, era como se achasse que sua compreensão tivesse sido tão afetada quanto seu pequeno corpo. Contudo, apesar da voz ofegante, ele respondeu prontamente.
– Preciso chegar à Jabalya, minha mãe está lá, pode cuidar de mim.
– Mas como você veio parar aqui sozinho?
– Eu não vim só senhor, vim com meu pai para pegar os alimentos que caem do céu, mas ele está morto, foi a mesma bomba que arrancou meu braço, eu não tive força para trazer o que restou do corpo dele, meu pai nem terá um túmulo e eu preciso dizer isso para minha mãe. O senhor tem água? Estou com muita sede.
Como pude ser tão parvo assim? Pensei. O ajudei a entrar no carro, lhe dei água e um sanduiche que restara na mochila. Lhe disse que o levaria para o hospital, mas ele insistia em encontrar a mãe primeiro, garanti que o deixaria lá e iria avisá-la, a levaria ao seu encontro.
No caminho para o hospital observei a devastação do lugar, nem parecia o mesmo onde eu estivera há pouco tempo atrás. No dia anterior ocorrera mais um ataque, casas em ruínas, ruas destruídas pelas explosões, pessoas vagando, sem ter para onde voltar, outras revirando os escombros em busca de sobreviventes, ou dos corpos dos que morreram, mulheres desesperadas procurando por seus filhos, ao mesmo tempo que acolhiam crianças perdidas que chamavam pela mãe. Realmente difícil acreditar que era o mesmo lugar que há pouco tempo pulsava de vida, de animação, apesar das restrições impostas por Israel, às quais a população procurava se adaptar e seguir em frente. Os destroços de carros dificultando o trajeto pelas ruas, me obrigavam a dirigir com cuidado, apesar da urgência da situação.
De vez em quando eu olhava para Hakim, ele também olhava a destruição no lugar onde nascera e vivera até então, a mão esquerda sobre seu colo as vezes tocava com cuidado o ombro ferido, o corpo tremia e ele a retirava rapidamente. Passamos em frente a uma escola incendiada, o ouvi dizer baixinho – ali, eu estudava ali.
Finalmente chegamos ao hospital Al-Awda, a situação era praticamente fora de controle; médicos, enfermeiros do serviço e os voluntários não conseguiam atender a quantos chegavam precisando de cuidados. Logo na entrada, onde antes funcionava a recepção, faziam uma triagem, priorizavam os que tinham mais chances de sobreviver, sem dilema ético. São as imposições da guerra, por um lado o completo desrespeito aos princípios humanitários, atingindo a população civil indiscriminadamente, causando a morte e a mutilação de civis, crianças, mulheres, idosos; por outro, escolhas improváveis, jamais pensadas em tempos de paz. Além dos feridos, havia muitas pessoas que buscavam refúgio ali por pensar ser um local seguro. Porém o hospital não tinha estrutura para receber tanta gente assim, o resultado era uma situação caótica, a qual, os profissionais e voluntários procuravam administrar sem muito sucesso.
Uma enfermeira recebeu Hakim e o levou, ele nada disse, mas cravou os olhos nos meus, dessa vez não desviei o olhar.
– Não se preocupe, anotei o endereço direitinho, vou buscar sua mãe.
Jabalya era o mais antigo e maior campo de refugiados palestinos próximo à Faixa de Gaza, mas agora estava devastado. Pensar que há menos de um ano eu e Deborah estivemos ali em uma animada noitada, nos divertindo com amigos, as ruas cheias de vida, pessoas alegres, apesar de viverem na condição de refugiados em sua própria terra.
A caminho da casa de Hakim me deparei novamente com pessoas que reviravam os escombros, na esperança de encontrar sobreviventes. Muita gente desaparecida, entes queridos sumidos desde o bombardeio do dia anterior. Haveria alguém vivo embaixo das ruínas?
Enfim cheguei ao endereço que ele me dera, mas não havia mais casa, tudo destruído. Fiquei ali parado, sem saber o que fazer, prometera que levaria sua mãe, o que vou dizer agora? Sem ânimo, sentei no que outrora fora uma parede, tentando organizar os pensamentos. Uma senhora que arrastava uma mala, parou junto a mim.
– O senhor procura alguém?
– Sim senhora, procuro a mulher que mora aqui, ou morava, antes da casa ser destruída.
Baixou o olhar, e falou bem devagar, como se ela própria quisesse se convencer
do que dizia.
– As pessoas que viviam aqui já não se encontram entre nós. Toda a família dizimada, o pai e o filho mais velho saíram para buscar comida e não mais voltaram, soubemos que abriram fogo sobre as pessoas que tentavam pegar os pacotes de alimentos. A mãe e a filhinha, apenas um bebê, morreram ontem quando a casa foi atingida.
Aquelas palavras ficaram ecoando não sei por quanto tempo na minha cabeça. Na volta ao hospital planejei várias formas de contar ao menino, mas não havia uma fórmula para aquilo. Pensei como as vezes é fácil fazer a manchete dos horrores, mas falar olhando no olho é tão diferente, como dizer o indizível? Eu simplesmente não tinha as palavras.
Logo que entrei na enfermaria, ele aguardou um instante olhando fixo para a porta, depois me fitou:
– Onde ela está? Cadê minha mãe?
As palavras continuavam fugidias, o olhei longamente e não foi preciso falar. Seu peito mirrado inflava com os soluços, parecia não conseguir respirar, o sentei na cama e o abracei com força.
E-mail: marquesavilamarlene@gmail.com
Clique aqui para seguir este escritor
Site desenvolvido pela Editora Metamorfose