Uma tourada em Sevilha, ou a barbárie que habita em nós


Marlene Marques Ávila

No meio da arena, o touro nervoso e enraivecido tenta se defender das várias manobras usadas pelos seres (humanos?) ao seu redor, mas seu destino está traçado. É certo que essa inevitabilidade já foi alterada algumas vezes, e eu estava ali a torcer por isso, porém uma torcida covarde, silenciosa, porque eu estava em uma terra estranha no meio de centenas de pessoas que tinham ido ali ver o touro morrer, afinal o herói do espetáculo é o toureiro, e a cada estocada que o touro tomava, a turba gritava olé. Entendi que quanto mais o animal sofre, mais olés, e isso por sua vez é um termômetro para o presidente da tourada, que ao final premia o matador, ou não, a depender da performance, com os infames troféus – as orelhas e o rabo do animal.
Vendo aquela luta injusta, não pude deixar de comparar com o circo romano em que humanos eram jogados às feras e a turba também ia ao delírio. O espetáculo aqui é o inverso, mas o martírio ao qual o touro é submetido creio ser semelhante; no meio da arena, indefeso, é intencional e sistematicamente submetido pelo toureiro e sua equipe a um ritual de sofrimento em grau crescente, cujo desfecho é a morte, a não ser que em uma dessas inexplicáveis viradas do destino, essa possa ser enganada. Na tarde ensolarada da primavera sevilhana torci fervorosamente, embora quieta, pela vida do touro, mas foi em vão.
À medida que o animal era enfraquecido pelas estocadas dos picadores, o espetáculo evoluía, os olés ressoavam, e a banda de música indicava o início de mais um round, ou fase da tourada, são três. Na segunda fase foram enfiadas no dorso do touro quatro bandarilhas, semelhantes a arpões, visam instigar o touro, é preciso enfurecê-lo para o ato final, covardemente, uma vez que depois de tantos ferimentos ele já está praticamente abatido. Mas eu ainda alimentava uma esperança, naquele momento lembrei do touro Ferdinando, quem dera aqui também fosse ficção, embora na vida real haja casos de touros que saíram vivos da arena, infelizmente não foi esse o caso. O toque musical anunciou o terceiro round, em que o matador deu o golpe final e a plateia foi à loucura, a gritaria – semelhante a um gol no último minuto da partida final do campeonato – ovacionava a tortura e a morte de um animal completamente indefeso, é a civilidade dando lugar à barbárie no velho continente, pensei.
Mas você, leitor, leitora, pode estar a se perguntar o que afinal fui fazer em uma tourada, senão assistir ao que acontecia ali. Vale uma explicação, naquele domingo, nosso terceiro dia em Sevilha, descobrimos que a Plaza de toros era bem próxima ao local de nossa hospedagem e resolvemos conhecer, afinal a tourada, assim como a dança flamenca e D. Quixote de La Mancha, é um patrimônio da cultura espanhola.
A Real Maestranza de Sevilha, a mais antiga plaza de toros da Espanha, é um belo edifício circular como um coliseu, que além da arena, onde obviamente ocorrem as touradas, ou corridas de toros, como os espanhóis as denominam, tem um salão de exposição, que abriga uma coleção de pinturas e gravuras referentes à tauromaquia, com vasta informação histórica sobre essa tradição cultural, além de trajes de toureiros, capas, cabeças de touros e cartazes. Nessa visita vimos o calendário de corridas de touros da temporada, chamada Feira de abril, um dos eventos mais esperados na cidade, e aquela tarde haveria um espetáculo, foi aí que cometemos o pecado grave de resolver assistir.
Em minha defesa devo dizer que não acreditava que o touro seria morto, eu tinha a informação que isso atualmente é proibido, se dá a disputa entre o toureiro e o touro, mas ao final esse não é abatido; depois vi que realmente há essa proibição em Portugal e em algumas cidades espanholas, mas não em Sevilha.
Saí dali pensativa, tentando dar um sentido ao que vira, por que a morte de um animal daquela forma cruel leva prazer à multidão? lembrei de uma amiga que mediante reações humanas incompreensíveis busca a explicação por meio de arquétipos, mas não tenho essa competência. Uma explicação possível é que a barbárie ainda habita em nosso inconsciente coletivo. Algum dia concluiremos nossa passagem à completa humanidade?

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Marlene Marques Ávila

E-mail: marquesavilamarlene@gmail.com

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