Francisco I - O papa do fim do mundo


Marlene Marques Ávila

Francisco I – O papa do fim do mundo

Em seu primeiro discurso após ser escolhido papa, Francisco ao dirigir-se aos milhares de fiéis na Praça São Pedro, já demonstrou sua simplicidade e opções que o guiariam em todo pontificado ao referir-se a si mesmo como bispo de Roma, não originário do continente europeu, ou seja, veio para servir e o fará com um olhar a partir da periferia do mundo: “Vós sabeis que o dever do Conclave era dar um Bispo a Roma. Parece que os meus irmãos Cardeais tenham ido buscá-lo quase ao fim do mundo… Eis-me aqui! Agradeço-vos o acolhimento: a comunidade diocesana de Roma tem o seu Bispo. Obrigado!”.
O Cardeal Jorge Mario Bergoglio, adotou o nome do santo do “amor fraterno, da simplicidade e da alegria”, tornou-se Papa Francisco I, e as lições do santo inspirador foram seu programa de vida apostólica. As encíclicas do magistério social da igreja, Laudato Si’ e Fratelli-tutti, encerram sua ampla visão de humanidade e fraternidade, ao trazer para as mesmas, inspiração de líderes religiosos ortodoxo e muçulmano, numa prática ecumênica para além das palavras.
Em toda sua trajetória como pontífice, Francisco jamais se privou de demonstrar e verbalizar seus sentimentos, fossem de revolta ante às injustiças, de determinação ante os poderosos, de ternura ante os fiéis e pessoas que buscavam sua palavra de consolo, de amor. Buscou com firmeza retomar os rumos da Igreja, traçados no Concílio Vaticano II.
Na epígrafe do livro “O papa da ternura”, a autora reproduz um trecho de uma mensagem papal em que ele diz “A ternura consiste em usar os olhos para ver o próximo, em utilizar os ouvidos para ouvir o outro, para prestar ouvidos aos gritos dos pequeninos, dos pobres, de quantos têm medo do futuro, para ouvir também o clamor silencioso da nossa casa comum, da terra contaminada e doente. A ternura consiste em utilizar as mãos e o coração para acariciar o próximo, para cuidar dele" . Esse breve trecho encerra duas amplas questões, as quais, Francisco não se cansou de abordar e exortar os poderosos para a sua gravidade e urgência – os pobres e a degradação do planeta pelo modo de vida atual.
Na Encíclica Laudato Si’, (Louvado sejais) Francisco enfatiza as causas humanas da destruição da nossa casa comum e expõe os pontos que norteiam sua análise, destaco aqui alguns: a relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta; a certeza que tudo está estreitamente interligado; a crítica do novo paradigma e formas de poder que derivam da tecnologia; a necessidade de mudar a chave para compreender a economia e o progresso; a cultura do descarte; a responsabilidade política internacional e local .
Francisco, na Encíclica Dilexit Nos (Ele nos amou) sobre o amor divino e humano de Jesus, traz profundas reflexões sobre o coração como centro de nosso ser corpóreo e espiritual, e nos adverte sobre a “importância de considerar o ser humano não como uma soma de diferentes capacidades, mas como um complexo anímico-corpóreo com um centro unificador que dá a tudo o que a pessoa experimenta um substrato de sentido e orientação”. Em outro trecho, Francisco afirma: "Neste mundo líquido, é necessário voltar a falar do coração; indicar onde cada pessoa, de qualquer classe e condição, faz a própria síntese; onde os seres concretos encontram a fonte e a raiz de todas as suas outras potências, convicções, paixões e escolhas. Movemo-nos, porém, em sociedades de consumidores em série, preocupados só com o agora e dominados pelos ritmos e ruídos da tecnologia, sem muita paciência para os processos que a interioridade exige”, sendo necessário, portanto, regressar ao coração .
Foi isso que ele fez, amou profundamente a humanidade, demonstrou e realizou esse amor com os desvalidos desse mundo, pobres, refugiados, presidiários, mas também o exercitou no contato com os donos do poder, com quem buscou pelo diálogo promover a paz e a redução das iniquidades. Foi seu amor profundo pela humanidade que o fez um papa revolucionário.
________________
Referências
Bênção Apostólica Urbi et Orbi. Primeira saudação do Papa Francisco. Sacada central da Basílica Vaticana, Quarta-feira, 13 de março de 2013. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2013/march/documents/papa-francesco_20130313_benedizione-urbi-et-orbi.html. Acesso em 21/04/2025.
FERNÁNDEZ, Eva. O papa da ternura. Tradução de Jaime A. Clasen. São Paulo: Paulinas, 2021.
CARTA ENCÍCLICA LAUDATO SI’ DO SANTO PADRE FRANCISCO SOBRE O CUIDADO DA CASA COMUM. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals.index.html. Acesso em 21/04/2025.
CARTA ENCÍCLICA DILEXIT NOS DO SANTO PADRE FRANCISCO SOBRE O AMOR HUMANO E DIVINO
DO CORAÇÃO DE JESUS. Disponível em:
https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals.index.html. Acesso em 21/04/2025.




voltar

Marlene Marques Ávila

E-mail: marquesavilamarlene@gmail.com

Clique aqui para seguir este escritor


Site desenvolvido pela Editora Metamorfose