deus ex machina


Marlene Marques Ávila

O homem balançava a cabeça e repetia “eu morro e não vejo tudo”, falava sozinho, ou melhor, com o celular, estava na mesa em frente à minha, na cafeteria, e parecia muito espantado com algo que a máquina lhe dizia, ou mostrava. Fiquei a pensar que coisas tão espantosas estaria vendo na geringonça, e se teria noção de que muito do que vê ali é induzido pelos tais algoritmos.
É progresso? É progresso sim, mas há tanta coisa no entremeio, que dá muito o que pensar, e para o bem de todos já tem muita gente pensando. Há pesquisas demonstrando prejuízos para a saúde dos escolares, relacionando o uso constante com depressão e ansiedade, entre outros problemas; relatos de professores que não conseguem ter o controle da sala de aula porque os alunos estão distraídos com jogos e interagindo nas redes sociais, enquanto eles e elas falam para as paredes, literalmente.
O fato é que a tecnologia está aí, e todos os problemas dela decorrentes, também. Uma medida recente foi tomada pelo governo brasileiro com a sanção de uma lei que proíbe o uso de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais (leia-se celulares) nas escolas públicas e privadas do país.
O debate está posto: É ser muito conservador? É não saber usar a tecnologia disponível como aliada no processo educativo? Qual seria o meio termo? São perguntas para as quais não temos respostas definitivas e que se aplicam às diversas inovações tecnológicas que gradualmente passam a fazer parte de nossa rotina. As inovações trazidas pela revolução digital evoluem tão rapidamente, que chegam até nós, sem dar a menor chance de analisarmos racionalmente as vantagens e desvantagens de seu uso; sequer temos a noção exata de suas possibilidades.
O que acontece com o celular é um bom exemplo disso. Quem diria no começo dos anos 1990, quando seu uso começou a se disseminar entre nós e um pouco mais tarde, quando tornou-se acessível à maioria da população, que essa tecnologia trazia em si todos os recursos de que dispõe hoje, dos quais somos tão completamente dependentes ao ponto de o celular ser praticamente uma extensão do nosso corpo?
A inteligência artificial invade nossa vida nas coisas mais banais, e está tudo bem, tudo muito cômodo; invade o mundo das artes e nós parecemos não perceber que isso diminui nossa humanidade. Me vem à lembrança o filme de Spielberg, enquanto o robô-menino queria ser humano, nós robotizamos cada vez mais tudo que nos cerca, e que é essencial à nossa natureza humana.
Às vezes sinto-me personagem passiva de um filme de ficção científica, cada dia, nossa vida é mais e mais invadida pela inteligência artificial e nós banalizamos isso. Dia desses, estava na casa de uma amiga e ela programou a Alexa para avisar quando o ovo estivesse cozido. Repeti então o dito do homem na cafeteria, eu morro e não vejo tudo!




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Marlene Marques Ávila

E-mail: marquesavilamarlene@gmail.com

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