Marlene Marques Ávila
Pensando sobre esse resgate amoroso dos tempos de doutorado no Rio de Janeiro, o qual tenho empreendido em forma de crônica, uma coisa interessante é que entre cinco docentes da Uece que foram em 2003 para o Instituto de Medicina Social, apenas duas se conheciam, por serem professoras do mesmo curso, no caso, eu e Nádia. Ilvana, Lucia e Maia, apenas os conheci nas reuniões que antecederam a nossa ida. Contudo, uma vez na cidade maravilhosa, compartilhei a morada e a vida justamente com essas pessoas antes desconhecidas, e lembrar sobre tudo que compartilhamos, traz para esse texto a necessidade de falar sobre empatia.
Mas, antes, até para enaltecer o que vem depois, quero contar que ao pegarmos o avião em Fortaleza, lógico que eu tinha receios, nunca tinha me afastado da minha família, e agora iria morar longe e dividir um quarto com duas pessoas desconhecidas, mas não era um receio que me fizesse duvidar de estar fazendo o certo. Contudo, quando o avião iniciou as manobras para alçar vôo, vi a Lucinha de olhos fechados, e enquanto eu fazia o sinal da cruz, ela fazia uns gestos estranhos com as mãos, fiquei espantada, não sabia o que era aquilo, pensei: "Será que ela é de alguma destas seitas exóticas que grassam por aí? Ai Meu Deus e agora...”, e por um momento duvidei. Achei muito estranho, mas não me senti à vontade para perguntar o significado dos gestos.
Porém, os estranhamentos iniciais não foram capazes de diminuir nossa vontade e disposição de fazer tudo dá certo, e a amizade que se firmou entre nós provou ser à prova de qualquer exotismo ou diferença. Muito tempo depois, vim a saber que os gestos eram um ritual do reiki, técnica de terapia energética, reconhecida como uma prática integrativa e complementar de saúde. Anos mais tarde, em um momento muito difícil da minha vida, Lucinha me cuidou com reiki, e já há alguns anos, também me tornei reikiana, mas voltemos à empatia.
Uma busca no Aurélio nos informa que empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro, compreensão, identificação. Uma busca nas minhas lembranças, me diz que empatia é embarcar nas histórias da Lucinha, de sua infância, da época da faculdade, de seu trabalho no interior do Ceará, histórias que são uma porta aberta para compreendê-la; empatia é saber da Ilvana, suas realizações e planos, e aos poucos me sentir fazendo parte de um pedacinho da vida dela; é conhecer, a partir da nossa convivência diária, as qualidades e limites de cada uma, e conviver com isso, sem que seja um fardo. É aprender com e sobre a outra, e assim ampliar o autoconhecimento, tão necessário para nosso crescimento pessoal.
Refletindo sobre aquele tempo, dessa distância tão confortável a qual permite dizer palavras que à época certamente não diria, percebo como exercitamos a arte da empatia, o quanto nos fizemos bem mutuamente, como nos fortalecemos agindo com a outra da forma que sabíamos ser agradável, ser correta, desenvolvendo uma profunda amizade e respeito recíproco.
Por tudo isso, além de todo o crescimento intelectual possibilitado pelo doutorado, aquele foi também um tempo de aperfeiçoamento como ser humano, de um aprendizado único, propiciado por tudo que optamos viver naquele tempo e lugar.
E-mail: marquesavilamarlene@gmail.com
Clique aqui para seguir este escritor
Site desenvolvido pela Editora Metamorfose