Ruptura


Marlene Marques Ávila

A rua estreita e comprida não tinha saída, iniciava atrás do muro de uma fábrica próxima à via férrea. Quem não conhece o local, sequer desconfia que logo ali atrás, naquela rua e seus becos, cerca de duzentas pessoas vivem a realidade que muitos acham só existir na ficção, esquecendo ser essa, a fusão do real com a imaginação. Assim, por menores que sejam, há sempre vestígios reais nas criações fictícias, e justamente aquela rua, era o cenário de uma realidade que transcende a ficção. Esses pensamentos passavam por sua cabeça, enquanto ali sentada, esperava para fazer seu depoimento.
Trabalhou na Ong cerca de três anos e aprendeu durante aquele tempo quanto mal o homem pode fazer a seus semelhantes e quão resilientes podem ser as pessoas na luta pela sobrevivência, mesmo que alguns não entendam por qual motivo, alguém que vive em meio a tanta miséria, insiste em sobreviver.
No início, pensou muitas vezes em abandonar o emprego, mas a assistente social sempre a convencia a ficar, sob o argumento válido da dificuldade de conseguir outro profissional, já perdera a conta de quantos haviam passado ali.
Cerca de seis meses depois que assumiu aquele emprego, o marido, horrorizado com as coisas que ela contava, insistiu que largasse tudo, era muito arriscado e eles não precisavam daquilo. Ela mesma não compreendia porque não ouvia seu marido e insistia em trabalhar com aquelas pessoas que viviam num mundo tão diferente do seu, em uma realidade até há pouco desconhecida, apesar de ter nascido e vivido toda sua existência na mesma cidade daquela rua inexistente, sequer consta no mapa. Às vezes se pegava pensando quantas ruas como aquela haveria ali? Quantas vidas, como as que agora conhecia, alimentavam as manchetes dos programas policiais, e quantas, perdidas ou mutiladas sequer chegavam a tais manchetes?
O fato é que passara a compreender seu trabalho ali como algum tipo de missão, achava ser seu dever ajudar aquelas pessoas. Quando viu sua determinação, o marido impôs uma condição, ela teria que andar armada, se houvesse, que Deus a livre, uma necessidade, poderia se defender.
– Amor, eles nunca farão nada comigo, me admiram e respeitam, e mesmo se houver algum problema eu não terei coragem de atirar em ninguém, você me conhece.
– Se houver necessidade vai ter coragem sim, e nunca deixe ninguém saber que tem uma arma na bolsa. Ninguém, entendeu?
Se corrompia um pouco a cada dia, portar uma arma, enfrentar as situações brutais com que se deparava, sem mostrar censura ou medo, atender vítimas de todos os tipos de violência – espancamentos de mulheres e crianças, estupros, adultos esfaqueados nas brigas da rua, muitos não queriam ir para o hospital para evitar que o caso chegasse à polícia. Mais de uma vez atendeu menores estuprados pelo próprio pai, bêbado e drogado. O que mais a horrorizava era a conivência das mães, via de regra, não queriam denunciar os companheiros, algumas delas também dependentes químicas. Era difícil saber se sentia mais raiva dos violadores, dos coniventes ou das vítimas silenciosas. Muitas das agressões eram tidos como castigo, a vítima teria descumprido alguma regra da comunidade, porque sim, ali havia leis e tinham que ser respeitadas.
Tais horrores eram acontecimentos quase banais naquela rua, e após ocorrerem, as vítimas lhe procuravam, contavam com seus conhecimentos para primeiros socorros e encaminhamentos necessários, e acima de tudo contavam com sua discrição.
Quase em frente à Ong tinha um beco, onde se davam, ali na segunda casa, as reuniões nas quais eram planejadas toda sorte de tramoias. No dia em que estavam lá nos encontros regados com muita bebida e drogas, todos na rua sabiam pelo barulho da música alta, gritos de guerra, gargalhadas. Não havia segredos, todos sabiam o que se passava, alguns aderiam; outros, não discordavam e tentavam sobreviver sem confrontos, nem sempre era fácil.
Na Ong, a sua atendente, a cozinheira, a zeladora, os jovens que cuidavam das crianças, eram quase todos, familiares dos caras donos da rua, sabia que qualquer deslize seu, eles tomariam conhecimento. Era comum ser cumprimentada por alguns, tinham respeito por ela, afinal cuidava de todos ali e não dava com a língua nos dentes.
Os acontecimentos de todo o tempo em que trabalhara lá, quase três anos, iam e voltavam em sua cabeça em detalhes, até o último ato. Naquele dia, quando chegou na Ong, logo percebeu que seria um daqueles dias, as pessoas que a aguardavam, estavam muito caladas, diferente do usual na sala de espera. Chamou a atendente em sua sala.
– O que houve?
– Doutora, estão todos com muito medo, o Pelado plantou o terror na comunidade esse final de semana. A dona Úrsula bebeu muito e como a senhora sabe quando isso acontece ela fala demais. Os policiais deram uma batida na rua toda, mandaram abrir a Ong porque ela disse que ele guarda droga aqui, levaram ele preso. Ela sumiu e os homens do Pelado pegaram os netos dela, disseram que se ela não aparecer até amanhã vão castigar as crianças.
Passados dois dias, as crianças voltaram para casa, mas dona Úrsula não apareceu, ninguém sabia seu paradeiro. Uma semana depois, Pelado estava de volta, era sempre assim – prende, solta, prende, solta. Ela soube que quando ele voltou, haviam lhe perguntado sobre a mulher desaparecida e ele respondeu que ela tivera o merecido e não tinha sido falta de aviso. A deram como morta, mais uma que sumia misteriosamente. Com certeza muitas pessoas sabiam o que acontecera, mas nunca lhe contariam. Sua preocupação eram as crianças, tão pequenas, a menina desde que foi violentada não falava, e o menino, um bebê de menos de dois anos, os dois só contavam no mundo com a avó alcóolatra, ela cuidava deles, eram os filhos de sua filha que estava presa porque esfaqueara o estuprador da filha enquanto ele dormia na cama ao seu lado. O que seria daquelas crianças?
Quase um mês depois, dona Úrsula reapareceu, não falou com ninguém, foi até a Ong e aguardou pela doutora. Esta, tomou um susto quando a viu, achava realmente que ela tinha sido morta, mas deve ter andado perto, pensou, o aspecto da mulher era lastimável. Dona Úrsula a olhou e desandou a chorar e segurando em sua mão praticamente a puxou até o consultório, quando entraram, dona Úrsula trancou a porta. A doutora tentou disfarçar, mas intuía que algo de muito mal acontecera e ela não tinha certeza se gostaria de tomar conhecimento, mas precisava falar com a mulher, dizer alguma coisa.
– O que aconteceu com a senhora? Onde estava todo esse tempo, não sabe que seus netos só têm a senhora no mundo, como os pode abandonar assim. Eles deixaram de vir pra creche, sabia?
Dona Úrsula apenas olhava para ela sem conseguir conter o choro. A doutora parou de falar e tentou se recompor, foi para sua cadeira atrás da mesa e esperou que ela dissesse alguma coisa, mas o silêncio persistiu. Depois de algum tempo, a mulher engoliu o choro, se levantou e foi até junto de sua cadeira, o mau pressentimento a invadiu com força, afinal por que ela não falava nada? O que queria? Dona Úrsula ajoelhou-se ao seu lado, apontou para a própria boca e a abriu.
Quando saiu da Ong naquele dia, sabia com certeza que não mais voltaria naquele inferno, precisava sair dali rapidamente mas as pernas não acompanhavam seu comando mental, quando enfim avistou o carro estacionado frente à fábrica, viu que Pelado estava lhe aguardando, as pernas fraquejaram queria dar meia volta e sumir, mas sabia que mesmo se conseguisse, não teria para onde correr, e agora já era tarde, ele a interpelou.
– O que a velha bêbada foi fazer lá? Se ela escreveu alguma coisa preciso que a senhora me entregue e não haverá nenhuma complicação, me passe o papel. A doutora abriu a bolsa, o tiro foi certeiro, entre os olhos.
Desde então, o que vira e fizera martelavam em sua mente, e quanto mais pensava mais se convencia que fizera o certo, porém, ali, naquela audiência de custódia, tinha certeza que o juiz, desconhecedor das regras de um mundo para ele desconhecido, não teria como discernir entre crime e justiça.

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Marlene Marques Ávila

E-mail: marquesavilamarlene@gmail.com

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