Sozinha


Marlene Marques Ávila

Como sempre, ele levantou antes dela, mas estranhamente não a beijou como sempre fazia, ela fingindo que dormia e ele fingindo não saber do fingimento. No mais, a manhã transcorreu como sempre, tomaram o café juntos, ela se ocupou um pouco das lidas da casa e depois voltou à sua leitura. Estava lendo um livro instigante sobre a história não contada do Brasil, sob a ótica dos africanos e afrodescendentes.
Apesar de considerar bom o seu conhecimento sobre o tema, estava descobrindo coisas jamais pensadas, grandes homens e mulheres negras que contribuíram para a herança histórica e cultural do povo brasileiro, cujos registros são praticamente inexistentes, foram excluídos da história oficial. Lia com incredulidade e revolta, estava mergulhada em um navio que saía do Congo com mais de quinhentos seres humanos, dos quais praticamente a metade não chegariam ao porto de destino, quando ele avisou que ia sair.
– Vou resolver umas coisas, mas volto logo.
– Vem almoçar em casa?
– Venho, mas vamos sair para almoçar fora hoje, certo?
Gostou da ideia, assim teria tempo para terminar sua leitura, precisava fazer um resumo sobre o tema. Mergulhou novamente no mundo das trágicas vidas negras. Afinal qual o melhor destino, pensava, morrer na travessia e ser jogado no azul atlântico, como era comum acontecer nos navios que faziam o tráfico negreiro? Ou ser escravizado pelo resto da vida, sofrendo todo tipo de ultrajes. Esse não era um bom pensamento, porque não, a opção de continuar liberto na África natal? Por que em algum momento perdido da história da humanidade, alguém se achou no direito de escravizar outro ser humano? E como isso pode evoluir ao ponto de o escravizado virar mercadoria?
Quando emergiu, viu que já passava do meio-dia, ele já deveria ter voltado. Olhou as mensagens no celular, mais ou menos às dez horas, cerca de meia hora após ter saído ele mandara uma mensagem, que a princípio ela considerou enigmática: “Ainda te amo, me perdoe”.
Enquanto tomava banho e se trocava, quando ele chegasse, já estaria pronta para saírem, deu tratos à bola tentando descobrir de que exatamente ele pedia perdão, mas não alcançava o significado. Ficou pronta, verificou suas mensagens novamente, ele não postara mais nada, já era quase uma hora da tarde, estava ficando com fome. Resolveu ligar, mas ele não atendeu, será que deixou o celular no carro? Pensou, era comum isso acontecer.
À espera continuou e ela pensou na vida dos dois, estavam juntos há tanto tempo que suas vidas se misturaram, mas o que mesmo ainda os unia, além da comodidade, ou do medo do recomeço, talvez? Não, estava resvalando para um caminho perigoso, era influência da leitura, havia mexido com emoções guardadas no silêncio.
Então o “me perdoe” começou a gritar alto em sua cabeça, de que santo deus, ele pedia perdão? Das coisas não compartilhadas, quando deveriam? Das palavras silenciadas? Eram quase três horas da tarde, foi à cozinha, mas não conseguiu engolir nada, sentia como uma grande bolha a crescer e esmagar seu estômago, uma dor quase insuportável. Quantas vezes já havia ligado novamente? Perdera as contas, a hipótese de ele não atender por ter deixado o celular no carro não era mais válida.
Tomou um comprimido e tentou dormir, não sabe quanto tempo passou ali, remoendo o “me perdoe”, e chorando incessantemente. Quando deu por si, já era noite, a primeira de todas as outras que passaria sem ele.

voltar

Marlene Marques Ávila

E-mail: marquesavilamarlene@gmail.com

Clique aqui para seguir este escritor


Site desenvolvido pela Editora Metamorfose