Crônicas do doutorado – Caju e manga


Marlene Marques Ávila

Em 2004, íamos ao Instituto de Medicina Social conforme a solicitação de nossas orientadoras – assim mesmo no feminino, no que se relaciona a Lucia, Ilvana e eu – íamos para discutir o progresso da pesquisa, cursar alguma disciplina específica, ou ainda participar de eventos importantes para nossa formação. Anualmente, havia os seminários promovidos pelo Laboratório de Pesquisas sobre Práticas de Integralidade em Saúde, dos quais sempre participávamos.
O seminário de 2004 realizou-se em setembro, e teve como título “Cuidado as fronteiras da Integralidade”, o professor Ruben Mattos, sempre bem humorado, fez em sua fala inicial uma brincadeira com esse título, que alguns poderiam acrescentar uma vírgula e mudaria tudo, ainda mais se acrescentasse uma exclamação: Cuidado, as fronteiras da integralidade! No mesmo tom de brincadeira, se referindo a uma companheira de trabalho ali presente, disse que ela era a flor, e ele, o vaso, inseparáveis. Em minha imaginação, a qual, é dada a voejar nos momentos mais inoportunos, surgiu a figura de um lindo vaso com a flor vicejante, contudo, soube tempos depois que a flor mudara de vaso.
Esses seminários eram imperdíveis, dele participavam grandes nomes da Saúde Coletiva, intelectuais importantes para a conquista da saúde como direito universal, diretamente envolvidos na construção, implantação e consolidação do SUS, leituras obrigatórias na nossa formação como sanitaristas. Eu sempre pensava, quando estava nos eventos do IMS, fossem bancas de qualificação e defesa de teses, ou os simpósios científicos tão frequentes, que ali não havia et al*, somente autores principais.
Desculpem a divagação, a finalidade aqui, como anuncia o título, é contar que em setembro quando fomos para o seminário do LAPPIS, eu levei uma caixa grande de isopor com caju e manga, frutas da estação que abundavam no meu quintal. Os destinatários eram Cecília e Maia, estavam no Rio há tantos meses, com certeza gostariam disso.
Dois dias depois de minha chegada, tinha um encontro com a professora Jane Sayd, minha maravilhosa orientadora, e antes de entrar na sala dela, a Cecília me procurou e contou que havia preparado uma bandeja com cajus e entregado à Jane no dia anterior. Fiquei surpresa, eu, tão desligada, nunca pensaria nisso, mas a Cecília com sua delicadeza pensou, e agiu.
Mal entrei na sala, ela eufórica, me agradeceu pelos deliciosos cajus, disse que a mãe dela havia adorado, e mandou me perguntar se podia assar as castanhas no forno micro-ondas.
– Hã? Poder até pode, só não sei as consequências.
– Melhor não então, vai que pipoca tudo na cozinha.
– É bom não arriscar, disse rindo.
Mais tarde no mesmo dia, encontrei com o Maia, um sorriso de orelha a orelha.
– Marlene tu não sabes o bem que me fez, me senti na terrinha, nem sei quantas mangas e cajus comi, achei que ia passar mal, mas quanto mais comia mais vontade tinha.
- Oh amigo, que bom você ter gostado tanto, olha essas frutas fizeram muito sucesso, mas vou confessar, a ideia nem foi minha, foi meu marido que colheu e disse para trazer pra vocês, agradeça a ele quando se encontrarem.
- Homi, rapaz, pois desde já agradeça a ele, foi igual me transportar para o Ceará!
Naquele dia saí do IMS com o coração tão leve! Nunca pensei que comer caju e manga fosse tão maravilhoso assim.



* Et al. é uma expressão usada nas referências bibliográficas de produções acadêmicas, em seguida ao nome do autor principal da obra, significando os autores colaboradores.

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Marlene Marques Ávila

E-mail: marquesavilamarlene@gmail.com

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