Marlene Marques Ávila
Crônicas do doutorado
Estávamos conversando animadamente no ônibus a caminho de Petrópolis. Eu e Ilvana íamos juntas em um assento mais ou menos no meio do ônibus, logo atrás de nós Lucinha com Davi, e ao lado deles na outra fila de assentos, André. Os dois, filhos de Lucinha, estavam passando as férias no Rio, matando a saudade da mãe.
Para nós outras, nada de férias, devido a uma greve, os semestres letivos na UERJ estavam fora de tempo, ou seja, não correspondiam aos meses de férias do calendário, o que para nós não era nenhuma novidade. Docentes de uma universidade pública estadual, estávamos acostumadas a driblar Gregório e seu calendário, e como parte de nossas reivindicações nas diversas greves eram sempre deixadas para as calendas gregas, tínhamos prática no assunto. Mas dada nossa mania de querer aprisionar o tempo, vamos datar esse episódio, era então, julho de 2003.
A conversa girava em torno da peça Sete minutos com Antônio Fagundes, na qual o tema é a relação da plateia com os atores em cena, cuja concentração é quebrada pelos barulhos feitos por pessoas menos ciosas da necessidade do silêncio. Estava justamente contando o momento da peça em que um celular toca no meio da plateia e ele desce do palco e vai até o incauto ou incauta, quando Ilvana, muito séria, disse baixinho, “tem um homem com um revólver aí atrás”. Pensei que era brincadeira e respondi:
– Não precisa radicalizar, se quer silêncio é só falar. Estava lhe contando porque você não quis ir e não sabe o que perdeu. Ela insistiu.
– Não estou brincando, tem um cara armado assaltando os passageiros.
Olhei rapidamente e o vi, estava a três fileiras atrás de nós. Em um primeiro momento, pensei, ainda bem que estou com uma blusa que esconde meu cordão com meu pequeno crucifixo, o qual nunca tiro do pescoço, depois, meti rapidamente a mão na bolsa, peguei meu cartão e um pouco de dinheiro que levava e prendi por baixo da cintura da calça. Como sempre faço em momentos de aflição, mentalmente recitava o Salmo 23 “O Senhor é meu pastor nada me faltará [...] Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque Tu estás comigo...
O meliante tinha um método, não falava alto, mas ficava o tempo todo ameaçando de revólver em punho, e avisando pra não olharmos pra ele, pedia os celulares e dinheiro. Pegava os pertences dos passageiros dos assentos à esquerda, depois dos que estavam no lado direito. Logo chegou a nossa vez, Lucinha previamente tirou cinquenta reais e quando ele chegou junto dela foi logo entregando; Ilvana não sei quanto deu, eu continuava orando e apertando dez reais na mão, diria que era tudo que eu levava, não olhei diretamente para ele nenhuma vez, em troca ele também não me olhou, era como se eu estivesse invisível, pegou o dinheiro de Ilvana e se virou para os assentos à direita. Deus é bom o tempo todo!
Quando enfim chegou na frente do ônibus, mandou parar e desceu. O motorista perguntou se estavam todos bem, sim, tirando o susto e os prejuízos, fisicamente estávamos todos bem. Ele avisou que iria direto para a delegacia de Duque de Caxias, bem próxima de onde nos encontrávamos, fazer o boletim de ocorrência, e também entraria em contato com a empresa, quem retornasse para o Rio no mesmo dia teria a passagem de volta garantida, informou.
Na delegacia, todo o procedimento foi rapidamente feito, no fim das contas nossa viagem atrasou mais ou menos uma hora, mas estávamos sãos e salvos, e eu no lucro, ganhara a passagem de volta. Passamos o dia nos divertindo em Petrópolis, e a noite demos boas risadas lembrando do perrengue. Ilvana disse que tinha dado apenas dez reais, então André não se conteve:
– Olha aí mãe, por que você deu logo uma oncinha!
E-mail: marquesavilamarlene@gmail.com
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