Marlene Marques Ávila
Na manhã ensolarada nos olhamos, era um domingo e não havíamos planejado nada previamente, mas precisávamos sair, não tinha sentido ficar em casa em um dia bonito como aquele.
– Vamos ligar para nosso amigo Maia, combinar alguma coisa! Falamos ao mesmo tempo e começamos a rir da coincidência.
– Eita, é muita sincronia, precisamos nos separar um pouco, isso não vai dá certo não, eu disse entre séria e zombeteira. Lucia me entendeu perfeitamente e deu a risada, que como eu já havia aprendido a interpretar, significava que talvez eu tivesse razão. Mas o fato é que já havíamos estabelecido o hábito de, aos domingos sairmos juntos, assim era natural que tivéssemos pensado ao mesmo tempo em chamar nosso amigo Maia. Ilvana disse que ia até a sala, fazer a ligação. Não demorou nada e retornou.
– O Maia não atendeu, daqui a pouco ligo novamente.
E assim, no espaço de meia hora, ela deve ter ligado três a quatro vezes, ele não atendeu e nem retornou a ligação como costumava fazer. Então começamos a conjecturar, e três mulheres fazendo conjecturas a respeito de um homem que simplesmente sumiu não é muito auspicioso. Pensamos várias possibilidades, entre as quais, traição, o que nos revoltou muito, pois aquela altura, mesmo ainda não conhecendo a Tetê, mulher do Maia, já gostávamos dela, e estávamos a postos para tomar o seu partido. Entre a traição, e ele estar tão doente, que nem conseguia atender o telefone, preferíamos essa segunda opção.
Havíamos começado o doutorado há mais de três meses, e no início, o Maia não saía aos finais de semana. Vivíamos caçoando dele, que não saía com a gente porque a Tetê não deixava, e de Fortaleza monitorava tudo. Ele ria meio sem graça, ainda não estava acostumado com nossas brincadeiras. Mas um dia falamos seriamente.
– Cara, você precisa sair, espairecer, não vai te fazer bem viver recluso assim.
Então ele confessou que sentia necessidade de ler muito, porque não tinha conhecimento sobre alguns dos assuntos que estávamos a estudar, uma vez que sua área de formação não era a saúde. Era mais que compreensível, mas insistimos que ele deveria se divertir um pouco. Assim, à medida que se sentiu mais à vontade nas disciplinas, as coisas ficaram mais tranquilas e também (penso eu), nos conheceu melhor, deu nossa ficha pra Tetê, ela deve ter autorizado e ele passou a ser nosso companheiro das saídas nos finais de semana.
Mas naquele domingo, sumiu. Nossa estranheza se devia ao fato dele sempre avisar, quando havia algum impedimento, que não poderia nos acompanhar. Mas naquele dia, nos driblou e desapareceu. Achamos um desaforo, que falta de consideração, mas deixa estar, amanhã antes da aula, ele vai nos contar direitinho essa história. Não deu outra, na segunda-feira o aguardamos do lado de fora da sala de aula.
– Bom-dia Maia Pinto, muito bonito não é?
– Bom-dia meninas, o que é tão bonito?
– Se faça de besta não, onde você estava ontem?
– Ontem? Ah sim, fui a Niterói.
– Niterói, foi? E não podia ter avisado não? O que tem lá, que você não podia dizer?
– É problema meu. Não quero falar sobre isso.
“É problema meu” espicaçou nossa curiosidade, bisbilhotamos muito, mas nunca descobrimos o que, ou quem lhe levara à Niterói, ameaçamos até contar a Tetê, mas ele não arredou pé, ou melhor, não abriu a boca e de bico calado ficou até hoje, vinte e três anos depois ainda não descobrimos o segredo de Niterói.
No fundo, acho que não há segredo algum, deve ter ido visitar algum amigo (ou amiga), pois já havia morado no Rio há alguns anos atrás, mas gostamos de fingir que há um mistério na sua ida à Niterói em uma linda manhã de domingo. Esse episódio ainda rende boas risadas sempre que nos encontramos.
E-mail: marquesavilamarlene@gmail.com
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