Marlene Marques Ávila
Depois de três meses no Rio de Janeiro, estávamos mais ou menos adaptadas e havíamos estabelecido uma rotina de estudos durante a semana e passeios pela cidade aos sábados e domingos, exceto naqueles em que precisávamos preparar alguma apresentação ou finalizar a leitura de um texto específico. O final de semana era sobretudo especial quando íamos ao teatro, a diversidade da oferta contínua de peças teatrais, a possibilidade de assistir bons espetáculos com grandes artistas nacionais, era algo que me fascinava.
Realmente me encantava o acesso à arte e cultura em diferentes espaços da cidade, apresentações musicais no SESC Flamengo aos sábados à tarde, o preço a pagar era unicamente a espera nas grandes filas que se formavam, vimos ali excelentes concertos. Também grátis, assistimos à Ópera do Malandro encenada sob os arcos da Lapa, com artistas como Mauro Mendonça, Lucinha Lins, Cláudio Lins, entre outros. Foi maravilhoso, a plateia cantando junto Geni e o Zepelim, indescritível!
Pagando R$ 1,00, é isso mesmo, não está faltando nenhum algarismo, nem foi erro de digitação, pagando um real, assistimos em um domingo pela manhã, o Maestro Isaac Karabtchevsky reger a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Iniciou a apresentação com o Hino Nacional, foi de arrepiar vê e ouvir aquele teatro lotado e as pessoas cantando o hino brasileiro, cantei chorando, emocionante demais.
Porém inesquecível mesmo, foi ir à ópera pela primeira vez, e não foi qualquer ópera, fomos simplesmente assistir a Tosca de Puccini, não lembro mais exatamente o custo do bilhete, mas era um preço extremamente acessível, a cidade realmente favorece às pessoas desfrutar da arte e da cultura.
Fomos a esse espetáculo em uma tarde de sábado, foi a primeira vez que eu entrei naquele teatro deslumbrante, já o havia visto várias vezes por fora e sempre admirava a linda construção com aquela águia dourada de asas abertas encimando o teto e as colunas imponentes. Naquela tarde, ao entrar, a admiração se multiplicou, achei tudo majestoso, a arte decorativa nas paredes e tetos, é muita beleza. Mas voltemos à ópera, Tosca é uma história trágica de amor que envolve poder, paixão e traição, cantada em três atos, tenho o libreto até hoje.
O espetáculo que vimos foi com a Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, regida pelo Maestro Silvio Barbato. Os artistas em cena exibindo o dom maravilhoso de suas vozes, sopranos barítonos, tenores, o figurino, o cenário, me transportavam, chorei várias vezes emocionada por aquele espetáculo tão belo. Certo momento, lembrei-me da emoção da personagem de Julia Roberts ao assistir a La Traviata no filme Uma linda mulher, a cena passou a fazer muito mais sentido para mim. Uma vez ou outra eu olhava para Lucinha, Ilvana e Maia, eles também estavam extasiados.
Terminando o texto, reflito que possivelmente, leitores e leitoras se perguntarão, e o doutorado? Hoje fui abduzida por essas doces lembranças de um tempo ímpar. Questões acadêmicas e reveses, sim, também ocorreram, serão abordados em futuras crônicas.
E-mail: marquesavilamarlene@gmail.com
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