Marlene Marques Ávila
Terça-feira era dia de feira, a qual acontecia semanalmente na esquina da Rua Marã, há poucas passadas da república de estudantes, onde então vivíamos. Éramos clientes assíduas.
Comprávamos tapioca que comíamos lá mesmo, lembrando de nossa terra. Depois percorríamos toda a feira, olhando tudo, e finalmente fazíamos nossas pequenas compras. Ilvana comprava sequilhos e alguns doces; Lucia, frutas, legumes e hortaliças; eu comprava flores. Gostava de enfeitar o nosso quarto. Era uma troca justa, eu achava, as flores nos alegravam e perfumavam o quarto que compartilhávamos, e elas dividiam comigo as guloseimas.
A ida à feira livre foi uma rotina que estabelecemos logo que chegamos no Rio de Janeiro. Relembrando disso agora, vejo que era mais uma maneira de ir a um lugar, o qual, de alguma forma nos transportava para o Ceará, do que propriamente a necessidade de comprar alimentos, dado que fazíamos praticamente todas as refeições fora, e isso era motivo de muitas reclamações, principalmente de minha parte, sentia muita falta da minha comidinha caseira.
Certa vez, Alex, futuro marido de Ilvana, mandou para ela alguns produtos de nossa culinária – feijão verde, carne de sol, queijo coalho. Fizemos um banquete e tanto, comer aquelas delícias foi como estar de volta à terrinha. Nunca pensei que se pudesse ter tanta saudade de sentir um determinado sabor. O cheiro e o gosto daqueles alimentos, me trouxeram muitas recordações de momentos felizes em volta da mesa com minha família e amigos.
Em outra ocasião, Maia Pinto, que residia no Flamengo, descobriu uma feira de produtos nordestinos próxima aonde morava, e em um domingo, nos convidou para almoçar. Havia comprado feijão verde, carne de porco, queijo coalho, nata e cheiro verde, tempero pouco usado no Rio. Preparamos com capricho nosso famoso baião-de-dois cearense e carne de porco frita acebolada com farofa. Foi uma comilança e tanto.
Só teríamos outro banquete igual em 2004, ano em que Cecília chegou para iniciar seu doutorado. Foi na casa dela que comi o melhor escondidinho de carne de sol do mundo, acompanhado, é claro, de feijão verde com queijo e nata.
Dessa forma, íamos burlando a saudade da família e das coisas de nossa terra, enquanto enriquecíamos nossos conhecimentos com tantos notáveis professores do Instituto de Medicina Social. Alguns já não estão entre nós, como a professora Alba Zaluar, que me apresentou a teoria da dádiva de Marcel Mauss, sobre a qual tecia ricas reflexões; e Ruben Mattos, com sua profunda compreensão da complexidade do Sistema Único de Saúde e dos obstáculos para cumprimento de seus princípios, destaque para a integralidade.
Ruben foi uma das pessoas mais amáveis que conhecemos no IMS, e o mais acolhedor de todos. Era muito perspicaz e inteligente, durante suas aulas, a impressão que eu tinha era que ele não conseguia parar de pensar e encadear ideias nem por um segundo, e ao mesmo tempo queria expor tudo que passava por sua mente brilhante, assim não parava de falar. Lucia ria quando eu falava que ele era um poço borbulhante de ideias.
Além dos professores da casa, grandes intelectuais brasileiros e internacionais frequentavam o IMS com certa regularidade. Não esqueço do dia em que ao chegarmos para nossa aula, observamos um grande alvoroço em frente a um auditório externo localizado próximo à saída para a estação do metrô. Fomos verificar de que se tratava, o rebuliço era devido à presença de Leonardo Boff no local, proferiria ali uma palestra. Ficamos lá mesmo, e o ouvimos falar sobre Gaia – a mãe terra e nossa casa comum.
Muito, muito tempo já passou desde então, contudo no momento em que escrevo essas lembranças, reflito como pouca coisa mudou, e algumas, mudaram para pior. Como continuam atuais, e mais que nunca necessárias, as reflexões críticas e as discussões que tivemos com nossos grandes mestres há vinte anos atrás!
E-mail: marquesavilamarlene@gmail.com
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