Marlene Marques Ávila
A estrada da vida não é linear, não é mesmo. Pelo contrário, é sinuosa, tem curvas e atalhos inesperados. Era sobre isso que Alcides quieto, sozinho no quarto escuro, relembrando trechos de sua estrada, pensava.
Começara a trabalhar muito cedo, criança ainda, tinha o que, nove, dez anos? Todos os dias depois da escola e de ajudar a mãe com as tarefas domésticas, saía com sua caixa de engraxate e se dirigia para a pequena rodoviária, onde sempre conseguia algum cliente. O que ganhava, mais as gorjetas dadas por um ou outro, tinham destino certo, guardava tudo, precisava economizar para ir pra cidade grande, queria estudar direito, ser doutor advogado. O patrão de seu pai era o responsável por tal determinação; não que algum dia o tivesse incentivado, mas o menino comparava, o pai e o doutor eram quase da mesma idade, um mandava o outro obedecia, um era o dono, o outro, pau mandado. Ele estava determinado a ter outro destino.
Moravam em um dos muitos casebres dos empregados da fazenda, e mesmo sendo tão novo, achava o pai acomodado, parecia até que ele gostava daquela vida. Se não fosse por sua mãe, ele e os irmãos nem mesmo estudariam, o pai achava perda de tempo, tinham era que aprender a lida da roça. Esse era o destino de várias gerações de sua família, o pai costumava dizer, mas não seria a sua, o menino respondia em pensamento.
O primeiro atalho surgiu aos quinze anos, uma oportunidade de trabalhar como jardineiro na casa de um parente do patrão, o pai não gostou da ideia, mas a pedido do fazendeiro acabou concordando, e assim ele foi para a capital. Trabalhava durante o dia, estudava a noite. Como tinha casa e comida, poupava praticamente todo o dinheiro que ganhava, precisaria dele mais tarde para dar a sua vida o rumo que havia traçado desde criança.
Aos vinte e um anos ingressou na faculdade de direito e deixou o quartinho do jardineiro para morar em uma república de estudantes, foi uma guinada e tanto na vidinha pacata que levara até então. Ali se descortinara uma vida nova, tanto pelos conhecimentos adquiridos, quanto pelos prazeres descobertos, era livre, e dentro de suas possibilidades, aproveitava ao máximo a liberdade.
Antes mesmo de terminar o curso, passou em um concurso para uma instituição pública, agora tinha estabilidade, e com o bom salário financiou seu primeiro apartamento. Sorriu ao lembrar dessa curva da vida, fora talvez seu momento de maior realização, tinha um emprego que era o sonho de vários jovens de sua idade e estava prestes a concluir a faculdade, o que possibilitaria sua ascensão no trabalho, sim tinha conquistado o que sempre sonhara.
Casou-se aos vinte e seis anos, o vermelho forte da pedra do anel de advogado reluzia em seu dedo, fez questão de comprar um rubi bem grande, ocupava agora um alto cargo na instituição, o casebre em que nascera e vivera até os quinze anos, já não mais lhe envergonhava, pelo contrário, gostava de contar como mudara o destino que seu pai dizia ser o que lhe cabia.
O casamento não lhe tirou a liberdade, apesar de ser dedicado à mulher e aos filhos, e nada lhes faltar, tinha muitas aventuras extraconjugais, afinal era novo e cheio de vida, essa vida que fora tão boa com ele, precisava desfrutar. Contudo, nunca pensou em deixar a família, sua mulher era linda, gostava de exibi-la nos eventos sociais e ela o amava muito, além de ser completamente dedicada ao lar.
A luz foi acesa e a esposa entrou no quarto na hora em que ele estava sorrindo lembrando dela quando jovem, como era encantadora! Ela segurou em sua mão:
– Meu querido, está tudo bem?
Ele queria muito responder com palavras, dizer que sim, mas apenas olhou longamente para ela e assentiu com os olhos. Será que ela compreenderia? Ainda era bela, a beleza tranquila da velhice, os olhos suaves, a voz doce, a solicitude com que lhe cuidava.
– Vamos, vou colocar o babador, meu meninão. Lhe dava as colheradas de sopa com cuidado e devagar, de vez em quando limpava os cantos da sua boca quando ele deixava escorrer a sopa ao invés de engolir. Às vezes uma lágrima escorria quando ela o tratava como um bebê, não por encontrar-se incapacitado, tinha se convencido que aquele fora o atalho que a vida achou para lhe mostrar quão errado fora com a esposa, e se conformara com a situação. O choro era por não poder dizer isto a ela. Pedir perdão por todas as vezes que a fez chorar, pelas noites de solidão, pelo amor desperdiçado.
Há quantos anos estava naquela cadeira de rodas? Ele não lembrava ao certo, no começo conseguia balbuciar de forma desordenada algumas palavras, depois nem isso. Apenas vivia mergulhado em seus pensamentos, refazendo sua estrada dia após dia, até que enfim viesse a última curva. Às vezes, ansiava por ela.
E-mail: marquesavilamarlene@gmail.com
Clique aqui para seguir este escritor
Site desenvolvido pela Editora Metamorfose